Senado do Paraguai nega pedido de adiamento do impeachment de Santiago Peña

Presidente do Paraguai, Santiago Peña - Foto: Governo do Estado de São Paulo/Wikimedia Commons (CC BY 2.0)
Senado paraguaio rejeita por 39 votos a 3 o adiamento da defesa de Peña, que segue convocado para o julgamento político
O Senado paraguaio rejeitou nesta sexta-feira (6) o pedido do presidente Santiago Peña para adiar em 72 horas a apresentação de sua defesa no processo de impeachment aberto contra ele. Em votação expressiva, 39 senadores se manifestaram contra a solicitação, enquanto apenas três votaram a favor, incluindo o presidente do Congresso, Basilio "Bachi" Núñez. Com a decisão, o julgamento político do chefe de Estado prosseguiu, e Peña foi convocado a comparecer ao Congresso às 12h10 no horário local.
Em pedido encaminhado ao Senado poucas horas antes da abertura da sessão, Peña alegou que o prazo inicialmente concedido, inferior a 12 horas, era insuficiente para analisar as cerca de 300 páginas do processo e preparar sua defesa. "Solicitei uma prorrogação de 72 horas para exercer meu direito de defesa", declarou o presidente, sustentando que o procedimento não respeita as garantias do devido processo legal. Em mensagem publicada na rede social X, Peña afirmou que pretendia apresentar sua versão dos fatos à população e advertiu que suas revelações poderiam desagradar diversos atores políticos. Ele também disse que não se afastaria de suas responsabilidades em um momento de crise e reafirmou seu compromisso com os paraguaios em meio à controvérsia provocada pelo processo de impeachment. A decisão do Senado ocorre em meio a uma das maiores crises políticas e financeiras da história recente do Paraguai.
O processo de impeachment contra Peña foi deflagrado após o colapso do Ueno Bank, que levou ao congelamento de depósitos de cerca de três milhões de pessoas, quase metade da população do país. O episódio provocou protestos em Assunção e pressionou o presidente a anunciar sua renúncia na quinta-feira. O Congresso suspendeu a análise da renúncia de Peña para priorizar o julgamento político, numa tentativa de oferecer uma resposta rápida à crise. Segundo o senador governista Derlis Maidana, a intenção do Parlamento era concluir o processo ainda no mesmo dia para "tranquilizar os cidadãos". O desgaste de Peña se aprofundou depois que ele perdeu o apoio de setores decisivos de sua própria base política.
Além da ruptura com lideranças do Partido Colorado, o presidente deixou de contar com o respaldo de seu principal padrinho político, o ex-presidente Horacio Cartes. Horas após o anúncio da renúncia, a Câmara dos Deputados aprovou por unanimidade a abertura do processo de impeachment, ao mesmo tempo em que rejeitou uma iniciativa semelhante contra o vice-presidente Pedro Alliana. Em mensagem divulgada nas redes sociais, Peña afirmou que decidiu renunciar por considerar prioritária a preservação da estabilidade institucional e pediu desculpas à população. "Quero pedir desculpas ao povo se, em algum momento, falhei", declarou, acrescentando que sua preocupação central são os paraguaios cujas economias ficaram bloqueadas pela crise bancária. A acusação contra Peña está centrada em supostos conflitos de interesse envolvendo sua antiga relação com o sistema financeiro. Antes de chegar ao poder, ele possuía participação acionária em uma holding que controlava o Ueno Bank, da qual se desfez em 2025.
A oposição sustenta que a instituição recebeu tratamento privilegiado por meio de decisões regulatórias e da aplicação de recursos públicos e previdenciários. A crise veio à tona na terça-feira (3), quando o Banco Central do Paraguai interveio no Ueno Bank por insuficiência grave de capital. Além das contas de clientes particulares, foram congelados recursos de órgãos estatais. Em resposta, o governo afastou a direção da autoridade monetária e promulgou uma lei estabelecendo prazo de cinco dias úteis para a devolução da maior parte dos depósitos. Durante a sessão que formalizou a acusação no Senado, opositores acusaram Peña de ter utilizado a estrutura do Estado para proteger interesses privados ligados ao banco. "Foi montado um esquema criminoso dedicado a esvaziar uma instituição financeira com a proteção de organismos controlados pelo presidente da República", afirmou o deputado opositor Raúl Benítez ao apresentar a denúncia.
Economista de formação, com passagens pelo Banco Central do Paraguai, pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) e pelo Ministério da Fazenda, Peña foi eleito em 2023 aos 44 anos, tornando-se o mais jovem presidente da história do país. Sua queda representa uma reviravolta para um governo que havia chegado ao poder prometendo estabilidade econômica e continuidade política sob a influência do Partido Colorado. Nos últimos dias, até mesmo aliados históricos passaram a criticá-lo. O senador colorado Oscar Salomón retirou seu apoio ao presidente e o acusou de colocar interesses financeiros acima dos interesses nacionais. As manifestações de dissidência dentro da própria base governista contribuíram para acelerar o processo que agora ameaça encerrar prematuramente o mandato presidencial de Peña, que deveria durar até 2028.



