Após impeachment, Santiago Peña é detido e vice assume Presidência do Paraguai

Pedro Alliana, político paraguaio do partido Colorado • Reprodução/Governo do Paraguai
Após crise bancária que afetou 3 milhões de clientes, Santiago Peña foi destituído e detido; vice Pedro Alliana assume a presidência
O vice-presidente do Paraguai, Pedro Alliana, assumiu nesta sexta-feira (6) como novo chefe de Estado do país após Santiago Peña sofrer impeachment e ser detido em meio a uma grave crise bancária que afeta cerca de metade da população paraguaia. A crise teve início na terça-feira (3), quando o Banco Central do Paraguai (BCP) interveio no Ueno Bank por problemas de solvência, deixando aproximadamente 3 milhões de clientes sem acesso aos seus depósitos e provocando protestos nas ruas do país.
Santiago Peña, do Partido Colorado, foi detido em sua residência, em Assunção, menos de uma hora após ser destituído em um julgamento político acelerado no Senado. "Ele permanecerá na condição de detido em seu domicílio", informou a promotora Silvia González. Vizinhos do presidente deposto se manifestavam pedindo que ele cumprisse as primeiras horas de reclusão em uma penitenciária comum, segundo a imprensa local.
Santiago Peña será conduzido na manhã deste sábado à Promotoria, onde será interrogado pelos supostos crimes de violação de confiança, tráfico de influência e gestão em proveito próprio. O ex-chefe de Estado mantinha vínculos empresariais com o Ueno Bank e é acusado de favorecê-lo por meio de decisões regulatórias e depósitos de recursos públicos, entre eles os do Instituto de Previdência Social (IPS).
Pedro Alliana, de 52 anos, que deverá cumprir o mandato até agosto de 2028, determinou "ações imediatas para ressarcir os correntistas", com prioridade para os menos favorecidos. O senador Antonio Barrios foi designado como novo vice-presidente.
"Os compatriotas que hoje atravessam um momento difícil em consequência do colapso financeiro serão integralmente indenizados. Não vamos deixá-los sozinhos", afirmou Alliana após receber a faixa e o bastão presidenciais.
O Senado destituiu Santiago Peña por "mau desempenho de suas funções", com 44 votos favoráveis e uma ausência, de um total de 45 senadores. "Viva o Paraguai!", gritaram parlamentares no plenário. Centenas de pessoas que aguardavam o resultado em frente ao Congresso comemoraram a destituição.
"Finalmente, finalmente Santiago Peña foi embora. Justiça foi feita. Agora queremos que ele devolva nosso dinheiro e termine na prisão", disse à AFP a manifestante Jessica Aquino, de 32 anos.
Assim como Santiago Peña, Alliana chegou ao primeiro plano da política paraguaia com o apoio do ex-presidente Horacio Cartes (2013-2018), líder do Partido Colorado, que governa o país de maneira quase ininterrupta desde o fim do século 19.
Peña havia apresentado sua renúncia na véspera, mas o Congresso não decidiu se a aceitava ou rejeitava. A renúncia teria permitido que ele mantivesse a imunidade parlamentar ao se tornar senador vitalício, mas a destituição o privou dessas prerrogativas.
O Banco Central do Paraguai começou na tarde de quinta-feira a devolver os recursos aos correntistas, confirmou à AFP José Maciel, diretor da Unidade Administradora do Fundo de Garantia de Depósitos.
Após a aprovação do início do processo de impeachment, também na quinta-feira, Santiago Peña anunciou que compareceria para responder às acusações. Na manhã desta sexta-feira, pediu um novo prazo para preparar sua defesa, mas o pedido foi recusado pelo Senado e o processo teve início em seguida.
"Existem violações muito básicas do devido processo legal, entre elas a questão do prazo", declarou no plenário o advogado Ricardo Preda, defensor de Peña.
O deputado Raúl Benítez, um dos responsáveis pela acusação, afirmou que "Peña instalou um esquema de esvaziamento bancário a partir do Poder Executivo" e apontou que a operação começou com a nomeação do ex-executivo do Ueno Bank Carlos Carvallo para o BCP.
A investigação conduzida pela Justiça paraguaia levou à prisão de oito diretores do banco. Entre quarta e quinta-feira, foram realizadas operações de busca e apreensão simultâneas em diferentes localidades ligadas ao grupo empresarial, incluindo residências particulares do CEO do Ueno, Miguel Vázquez.
A crise também chegou à Argentina, onde cerca de mil funcionários da empresa de tecnologia ITTI, pertencente ao mesmo grupo, foram suspensos por 30 dias sem remuneração.
O setor esportivo também foi atingido: a Confederação Sul-Americana de Futebol (Conmebol) tinha cerca de US$ 13 milhões depositados no banco, segundo uma fonte da entidade que pediu anonimato à AFP, embora tenha ressaltado que "isso não afeta em absoluto o funcionamento operacional da Conmebol".
Os paraguaios ainda guardam na memória o ano de 2012, quando o então presidente Fernando Lugo foi destituído em um processo de impeachment igualmente rápido, após um massacre que deixou 11 camponeses e 6 policiais mortos a cerca de 250 quilômetros de Assunção.
A destituição de Santiago Peña marca mais um capítulo turbulento na história política do país, desta vez impulsionado por uma crise financeira de grandes proporções.



