Janones convoca argentinos contra Milei após conversa com Cristina Kirchner

Foto: Reprodução
Deputado se reúne com Cristina Kirchner e Sergio Massa em Buenos Aires para compartilhar estratégias digitais da campanha de Lula
O deputado André Janones (Rede-MG) visitou Buenos Aires e se reuniu com os principais nomes da oposição argentina, incluindo a ex-presidente Cristina Kirchner e o ex-ministro da Economia Sergio Massa. Durante a visita, Janones compartilhou as estratégias digitais utilizadas na campanha de Lula e gravou uma mensagem de apoio ao canal "Exército do Peronismo" no WhatsApp, convocando os argentinos a se unirem para derrotar Javier Milei nas eleições de 2025. Acompanhado pelos publicitários brasileiros Rafael Marroquim e Chico Kertész, responsáveis pela campanha de Lula, Janones defendeu a articulação de forças progressistas na região e afirmou que a disputa eleitoral do próximo ano será decisiva para medir a capacidade de reação da esquerda latino-americana.
Ao falar com jornalistas após a reunião com Cristina Kirchner, que cumpre prisão domiciliar por corrupção, Janones redefiniu a missão do "Exército do Lula", grupo de WhatsApp com 10,5 milhões de seguidores. "A primeira missão era reeleger o presidente Lula. Conseguimos. A partir de agora é dar governabilidade ao presidente para que ele não fique refém da Câmara nem do Senado", declarou o deputado. Ainda na porta do edifício de Cristina Kirchner, no bairro de Constitución da capital argentina, Janones avaliou que a vitória de Lula pode ter sido "um levante do campo progressista contra a extrema direita no mundo".
Para ele, a "prova de fogo" será derrotar Milei em outubro do ano que vem. "Acho que derrotar o Milei aqui, no próximo ano, vai ter um significado muito semelhante ao que teve no Brasil. Vai ser um teste de fogo para mostrar que o caso do Brasil não foi um caso isolado. Derrotar a extrema direita aqui na Argentina vai mostrar que não foi um lance de sorte. Realmente, iniciou-se um levante do campo progressista, da esquerda, contra a extrema direita no mundo, iniciando pela América Latina", declarou Janones. Sobre seu próprio futuro político, Janones descartou assumir um ministério, reforçando que seu papel mais útil ao presidente Lula é no Legislativo. "Se eu fosse olhar para a minha zona de conforto, o ideal seria ir para o ministério. Mas, se eu for olhar para onde eu posso entregar para o presidente o que ele precisa, é na Câmara dos Deputados", ponderou, explicando que "um cargo ministerial o deixaria preso à liturgia e às obrigações burocráticas".
A reunião com Cristina Kirchner durou mais de duas horas e foi centrada nas técnicas algorítmicas utilizadas para dominar as discussões nas redes sociais durante a campanha eleitoral brasileira. "Ela se mostrou muito interessada em entender como a gente conseguiu esse resultado nas redes sociais durante o processo eleitoral. Falamos sobre peculiaridades do cenário da Argentina. A gente sabe que não é necessariamente igual no Brasil, mas que existem algumas semelhanças", comparou Janones. "A gente entende que uma parte do que foi aplicado no Brasil pode ser replicado ao redor do mundo.
O meu objetivo é, dentro daquilo que eu conheço da lógica algorítmica, do modo de funcionamento das redes sociais, levar isso ao máximo possível de pessoas, porque o nosso objetivo final é um só: derrotar a extrema direita no cenário mundial", apontou Janones. Em entrevista ao canal argentino C5N, ao lado do marqueteiro Rafael Marroquim, Janones afirmou que "30% da revolução digital aplicada na campanha eleitoral brasileira pode ser replicada em qualquer país do mundo", mas que, no caso argentino, "cerca de 50% ou 60% podem ser replicados". Logo após chegar a Buenos Aires, Janones, Marroquim e Kertész também se reuniram com Sergio Massa, ex-ministro da Economia e candidato derrotado por Milei nas eleições de 2023. O encontro, que durou cerca de uma hora, teve como foco as técnicas de uso do algoritmo para contornar a plataforma Meta. Massa é um dos presidenciáveis do Partido Justicialista (Peronismo) para a disputa do próximo ano, ao lado do governador da província de Buenos Aires, Axel Kicilof.
A própria Cristina Kirchner, atualmente inelegível e impedida pela Justiça de assumir qualquer cargo público, busca influenciar a escolha do candidato do partido. Em entrevista ao jornal "The Washington Post", publicada nesta segunda-feira (2), ela não descartou uma eventual candidatura: "Quando eu recuperar os meus direitos políticos, por que não (ser candidata)?", disse. Após os encontros, Janones gravou uma mensagem de vídeo para o canal "Exército do Peronismo", criado logo após a vitória de Lula. "Sigam o canal do "Exército do Peronismo" no WhatsApp, porque vocês farão parte da história da Argentina. Acreditem nisso e sigam o Exército", começa o vídeo. "Venho convidar todos os argentinos e dizer a vocês que se unam, porque é possível vencer. Espero que a vitória do presidente Lula possa inspirar todos os argentinos a dizer que podemos derrotar e que vamos derrotar Milei e a extrema direita", convocou. Os contatos entre os marqueteiros brasileiros e os presidenciáveis do peronismo apontam para um possível acordo de assessoria para a campanha eleitoral contra Milei.
O publicitário Rafael Marroquim foi cauteloso ao avaliar a transposição das estratégias. "Estamos aqui compartilhando experiências. Somos parte de um mesmo campo, o campo popular. Mas cada eleição tem o seu contexto, a sua história. Seria obtuso vir com uma receita pronta. Não há receitas. É preciso olhar para a realidade, realizar grupos focais e pesquisas quantitativas. Também observar os diálogos nas redes e ver como é a coalizão de forças políticas", avaliou. A estratégia dos marqueteiros brasileiros também prevê o uso do modelo de ajuste fiscal de Milei como argumento eleitoral, da mesma forma que foi utilizado contra Bolsonaro no Brasil. "Nós começamos a campanha falando sobre o que poderia acontecer no Brasil se a tesoura de Flávio Bolsonaro fosse usada. O que acontece aqui na Argentina foi parte da comunicação que usamos no Brasil", recordou Marroquim.



