Lula convoca Haddad, Alckmin, Durigan e Galípolo para debater ajuste fiscal

Presidente Lula - Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil
Haddad, Durigan, Galípolo e Alckmin são convocados por Lula para discutir economia e trajetória da dívida pública no quarto mandato
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva deve reunir, na manhã desta quinta-feira (5/11), no Palácio da Alvorada, um grupo seleto de conselheiros de sua confiança para debater os rumos da economia no quarto mandato. O objetivo é encontrar caminhos que preservem os benefícios sociais, alterem a trajetória da dívida pública e atraiam investidores estrangeiros interessados em soluções ambientais e geológicas.
Segundo informações apuradas pela coluna, foram convocados o ex-ministro da Fazenda Fernando Haddad, o atual ministro Dario Durigan, o presidente do Banco Central Gabriel Galípolo e o vice-presidente Geraldo Alckmin. O ex-ministro Guido Mantega também manifestou interesse em ser ouvido, entre outros conselheiros.
Lula foi reeleito em 25 de outubro com 51,75% dos votos válidos, contra 48,25% de Flávio Bolsonaro (PL). Ao longo do mandato atual, a dívida pública ultrapassou 82% do PIB, uma elevação de cerca de dez pontos percentuais. Cada conselheiro deve chegar à mesa com uma perspectiva distinta sobre como enfrentar o problema fiscal do país.
As diferentes visões sobre a economia
Durigan, que assumiu a Fazenda quando Haddad saiu para disputar o governo de São Paulo, tem sido aconselhado por economistas mais ortodoxos. O ministro está preocupado com o crescimento das despesas e defende ajustes mais complexos e de longo prazo nas contas públicas, com medidas graduais, porém consistentes. Ele também enxerga potencial nos investimentos estrangeiros como alavanca para o crescimento.
Por apostar na entrada de capital externo interessado nos recursos naturais do país, Durigan rejeita qualquer medida que possa ser interpretada como controle de capitais, avaliando que um sinal nessa direção afastaria os investidores que o governo pretende atrair.
Galípolo deve defender um Banco Central independente e autônomo, a continuidade da meta de inflação e a posição do mercado financeiro tradicional, que exige disciplina fiscal e sinais concretos de controle dos gastos como condição para a queda dos juros. Como a taxa básica incide diretamente sobre o custo da dívida, a avaliação do Banco Central é considerada decisiva para qualquer estratégia de estabilização.
Haddad defende a unificação dos benefícios sociais em um novo modelo. Ainda como ministro, em fevereiro, ele propôs uma nova arquitetura para os gastos assistenciais, com a reunião de programas nos moldes do que foi feito em 2003, quando iniciativas dispersas foram consolidadas no Bolsa Família.
Alckmin defende levar para Brasília a mesma fórmula aplicada no governo de São Paulo. Como governador, ele tratou o ajuste fiscal como tarefa permanente, com contingenciamento do Orçamento logo no início de cada gestão, corte de despesas de custeio, redução de cargos comissionados e revisão de contratos, preservando ao mesmo tempo a capacidade de investimento do Estado.
Para o vice-presidente, o governo federal precisa dar o primeiro exemplo antes de pedir sacrifícios a outros setores, cortando gastos supérfluos e os supersalários do funcionalismo. Alckmin também pretende rever o fundo eleitoral e as emendas parlamentares, que consomem uma fatia crescente do Orçamento e reduzem a margem do Executivo para investir.
Mantega representa a ala desenvolvimentista do PT. O ex-ministro sustenta que o principal problema da economia brasileira está na política monetária, que ele já classificou como irracional, e não no excesso de gastos. Na sua visão, os juros altos encarecem a dívida, travam o investimento produtivo e limitam o crescimento, que seria o melhor caminho para reequilibrar as contas.
Mantega comandou a Fazenda entre 2006 e 2014, período em que defensores de sua gestão destacam que a dívida líquida caiu de 49% para 33% do PIB.
Além do ajuste das contas, o governo quer usar a transição energética e os recursos minerais, como as terras raras, como vitrine para o capital estrangeiro. A aposta é que investimentos em energia limpa, preservação ambiental e mineração estratégica tragam dólares, crescimento e arrecadação sem pressionar o Orçamento.
Na reunião, Lula deve, como costuma fazer nesses encontros, mais ouvir do que falar, sobretudo porque está poupando a voz para a gravação do pronunciamento.



