
Bandeira do Paquistão - Foto: Matt King via Getty Images
A incerteza paira sobre o Paquistão nesta sexta-feira (10), horas antes do início previsto das negociações entre Irã e Estados Unidos. Não há confirmação oficial da chegada das delegações, enquanto ambas as partes trocam acusações de violações do cessar-fogo recentemente acordado.
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, manifestou sua insatisfação com a gestão iraniana do Estreito de Ormuz, cuja reabertura estava prevista no acordo de trégua anunciado na terça-feira. O Irã, por sua vez, expressou indignação com os ataques israelenses no Líbano, que resultaram em mais de 300 mortos na quarta-feira, e insiste que este país está incluído no acordo de cessar-fogo, algo que Washington nega categoricamente.
Apesar das incertezas, Islamabad continua com os preparativos para as conversas de alto nível. Segundo fontes oficiais paquistanesas, as negociações abordarão temas cruciais como o programa de enriquecimento nuclear iraniano e a livre circulação pelo estratégico Estreito de Ormuz.
A trégua de duas semanas foi estabelecida para permitir negociações entre autoridades americanas e iranianas com o objetivo de encerrar um conflito que já deixou milhares de mortos e desestabilizou a economia mundial.
Após cinco semanas sob bombardeios, os habitantes de Teerã vivem entre sentimentos conflitantes. "Tenho medo tanto de que a guerra volte a começar como de que o regime continue", disse Sheida, que preferiu não revelar seu sobrenome por questões de segurança. Amir, um artista de 40 anos, demonstra ceticismo e não acredita que o acordo e as negociações "durarão nem sequer uma semana". Segundo ele, as autoridades iranianas "não entendem o que é paz".
Desde o anúncio do cessar-fogo, surgiram divergências significativas sobre sua extensão geográfica. O Paquistão, como país mediador, afirmou que a trégua se aplica "em todos os lugares, inclusive no Líbano", mas tanto americanos quanto israelenses rejeitam essa interpretação. O porta-voz do Ministério das Relações Exteriores do Irã, Esmaeil Baqaei, vinculou a realização das negociações ao respeito da trégua "em todas as frentes, particularmente no Líbano".
Enquanto aguarda a chegada dos negociadores, Islamabad transformou-se em uma cidade fantasma sob forte esquema de segurança. Os diálogos estão programados para acontecer em um hotel de luxo da capital paquistanesa.
A Casa Branca confirmou a chegada no sábado da comitiva americana chefiada pelo vice-presidente JD Vance, que será acompanhado pelo enviado especial Steve Witkoff e por Jared Kushner, genro de Donald Trump.
Do lado iraniano, há mais incertezas. O embaixador de Teerã no Paquistão chegou a anunciar na rede social X que a delegação iraniana chegaria na noite de quinta-feira, mas posteriormente apagou a mensagem. Nesta sexta-feira, a agência de notícias iraniana Tasnim afirmou que "as negociações estão suspensas" enquanto os Estados Unidos "não respeitarem seu compromisso com o cessar-fogo no Líbano e o regime sionista continuar seus ataques".
Mesmo que eventualmente as partes se sentem à mesa de negociações, posições diametralmente opostas em questões-chave dificultam um acordo substantivo. O chefe da Organização de Energia Atômica do Irã descartou categoricamente restringir o enriquecimento de urânio, uma das principais exigências de Israel e dos EUA, que temem que Teerã desenvolva armas nucleares.
Também não se vislumbra uma solução fácil para a situação no Estreito de Ormuz, por onde transitava cerca de 20% do petróleo mundial antes dos conflitos. Embora sua reabertura fosse uma das condições centrais do cessar-fogo, desde sua implementação poucos navios conseguiram atravessá-lo. Em uma sequência de mensagens nas redes sociais, Trump acusou na quinta-feira o Irã de estar fazendo um "péssimo trabalho" em relação à reabertura de Ormuz e de descumprir os termos do acordo.
A trégua anunciada interrompeu em grande parte as hostilidades na região. No entanto, as sirenes voltaram a soar nesta sexta-feira em Israel, segundo o Exército israelense, após o lançamento de foguetes a partir do Líbano. O Hezbollah reivindicou vários ataques com foguetes e drones, entre eles contra uma base militar em Ashdod, no sul de Israel.
Após os intensos ataques israelenses no Líbano, um diplomata ocidental afirmou que países árabes e europeus estão exercendo forte pressão para impedir novos bombardeios contra Beirute. Na manhã desta sexta-feira, o Exército israelense ainda não havia concretizado os avisos do dia anterior de que lançaria ataques contra amplas áreas ao sul da capital libanesa.
Um funcionário americano informou à AFP na quinta-feira que o Departamento de Estado em Washington sediará negociações entre Israel e Líbano na próxima semana. Pouco antes, o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, anunciou que havia ordenado a abertura de "negociações diretas" com o Líbano, cujas autoridades exigem um cessar-fogo completo antes que qualquer conversa possa começar. O Hezbollah, que o governo libanês tenta desarmar sem sucesso há anos, rejeitou imediatamente essa iniciativa.
Desde o início do cessar-fogo, ataques iranianos também foram relatados nos Emirados Árabes Unidos e no Kuwait, que na quinta-feira denunciou ataques com drones contra "várias instalações vitais".
Diante da fragilidade evidente da trégua, prevalece a cautela nos mercados internacionais, onde o preço do petróleo subiu ligeiramente nesta sexta-feira, embora ainda permaneça abaixo da marca de 100 dólares por barril.
A incerteza sobre as negociações no Paquistão reflete a complexidade da situação geopolítica no Oriente Médio e as dificuldades em estabelecer um diálogo efetivo entre potências com interesses divergentes. O sucesso ou fracasso dessas conversas poderá determinar o futuro imediato da estabilidade regional e impactar diretamente a economia global, especialmente o setor energético.