Extrema direita europeia se afasta de Trump após derrota

O político francês Jordan Bardella - Foto: European Parliament via Wikimedia Commons
Líderes de extrema direita na Europa se distanciam de Trump e apontam a guerra no Irã como causa da derrota republicana nas eleições de meio de mandato
Os líderes de extrema direita da Europa começaram a se distanciar de Donald Trump após a vitória dos democratas nas eleições de meio de mandato dos EUA.
Embora a maioria tenha evitado criticar diretamente o presidente, a mudança de postura é significativa, especialmente considerando que muitos desses políticos comemoraram publicamente seus laços ideológicos com Trump após sua vitória em 2024, com alguns tendo visitado Washington e recebido apoio do bilionário Elon Musk.
A principal justificativa apresentada pelos líderes europeus de extrema direita para o resultado eleitoral foi a guerra contra o Irã e o aumento do custo de vida. A postura de Trump em relação ao conflito, considerada intervencionista, foi apontada como uma quebra de promessas de campanha que teria afastado eleitores dos republicanos.
Líderes europeus apontam a guerra no Irã como fator decisivo
Jordan Bardella, líder do Reunião Nacional da França e favorito para liderar o próximo governo francês segundo as pesquisas, foi um dos primeiros a exemplificar essa mudança. Ele afirmou que o segundo mandato de Trump foi "menos isolacionista do que o primeiro, de 2017 a 2021".
Bardella acrescentou que "a intervenção norte-americana em relação ao Irã acarreta consequências muito graves" para as economias ao redor do mundo, sem, no entanto, mencionar Trump diretamente como responsável.
Na Alemanha, Alice Weidel, colíder do partido Alternativa para a Alemanha (AfD), também atribuiu a derrota republicana à guerra. "Trump havia prometido a seus eleitores que não seguiria uma política externa intervencionista... Essa promessa quebrada agora voltou para assombrar os republicanos", disse ela ao site de notícias T-Online.
O próprio Trump reconheceu que o conflito com o Irã teve papel nas derrotas do partido, mas afirmou que mantém sua decisão.
Pressões do custo de vida no centro do debate
Na Itália, Matteo Salvini, líder do partido Liga e integrante da coalizão governista, afirmou que "o resultado norte-americano foi influenciado sobretudo pelas guerras, pelas tensões internacionais e pelo aumento do custo de vida, cujas consequências recaem diretamente sobre as famílias". Ele acrescentou que "a esperança é que essa votação possa representar uma aceleração rumo ao fim dos conflitos e um retorno à paz".
Roberto Vannacci, ex-general italiano e líder do partido Futuro Nacional, que já havia expressado admiração pela política "America First" de Trump, foi mais direto em suas críticas. "Trump não correspondeu às expectativas, foi incapaz de pôr fim à guerra entre a Rússia e a Ucrânia e iniciou uma guerra contra o Irã", disse Vannacci à agência ANSA, argumentando que o aumento nos preços da energia e a turbulência econômica prejudicaram a classe média americana e contribuíram para o resultado eleitoral.
Os laços com Trump podem se tornar "peso eleitoral"
Segundo o analista Mujtaba Rahman, diretor-gerente da consultoria de risco político Eurasia Group, o distanciamento tem uma motivação política clara. "Sua crescente impopularidade, especialmente em relação ao custo de vida, corre o risco de transformar o que antes era um trunfo político em risco eleitoral", disse ele à Reuters.
Rahman observou que os líderes da extrema direita europeia parecem querer colher o "impulso ideológico do trumpismo" sem serem associados ao "caos e pela perturbação econômica de sua presidência".
O analista alertou ainda para um risco adicional: "O risco é que Trump e seus aliados do MAGA, que veem a extrema direita europeia como parceiros ideológicos em sua luta contra o establishment europeu, possam reagir retirando seu apoio político ou até mesmo voltando-se contra eles".
Nem todos, porém, adotaram um tom crítico. Dan Dungaciu, vice-presidente da Aliança para a Unificação dos Romenos, minimizou a magnitude da derrota republicana, argumentando que as notícias sobre a "morte política" de Trump eram "muito exageradas". "Donald Trump não se torna automaticamente um presidente sem poder. Em vez disso, ele passa de uma presidência apoiada por maiorias republicanas para uma em que o Executivo e o Congresso se controlarão mutuamente de forma muito mais intensa", afirmou.
Na Espanha, o líder do Vox, Santiago Abascal, que no passado divulgou abertamente sua aliança com Trump e o movimento MAGA, fez pouco esforço para disfarçar seu distanciamento, dizendo aos repórteres que estava "na Espanha e não em Michigan". "Não me importo muito com o que acontece em outros lugares", declarou.
No Reino Unido, Rupert Lowe, líder do Restore Britain, chamou a decisão de atacar o Irã de "erro catastrófico", questionando: "O que essa guerra conseguiu? Absolutamente nada de valor."
Já Nigel Farage, líder do Reform UK e conhecido por alardear sua amizade com Trump, reconheceu que a eleição havia sido uma "derrota completa e total" para os republicanos. Farage, que visitou a Casa Branca no ano passado, disse à GB News que agora há "potencial" para um desentendimento entre Trump e o vice-presidente JD Vance. "Foi uma derrota esmagadora, em grande parte, creio eu, por causa da guerra, da guerra prolongada no Irã e do custo do combustível", acrescentou.
O cenário revela uma reconfiguração nas relações entre Trump e seus aliados europeus de extrema direita, que buscam preservar a identidade ideológica do movimento sem carregar o peso político das decisões mais controversas da presidência americana.



