Especialistas consideram virada de Lula improvável, apesar da diferença pequena

Foto: Ricardo Stuckert/PR
Lula terminou o primeiro turno com a menor diferença já registrada, mas especialistas alertam que uma virada histórica é improvável
Segundo colocado no primeiro turno das eleições deste ano, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) enfrenta o desafio de protagonizar uma virada histórica nas urnas. Desde a redemocratização, nunca houve uma inversão desse tipo no desfecho de uma corrida presidencial brasileira. Especialistas consultados classificam a missão como "improvável, mas não impossível". Lula terminou o primeiro turno com 2,2 milhões de votos a menos do que Flávio Bolsonaro (PL), uma diferença de 1,9%. Trata-se da menor margem entre dois candidatos à Presidência no primeiro turno desde 1989, quando o Brasil retomou as eleições diretas. Esse dado é apontado como um ponto favorável ao petista, embora especialistas alertem que ele, por si só, não configura um cenário positivo. "Embora nunca tenha havido uma virada de segundo turno em eleições presidenciais no Brasil, também nunca houve uma diferença tão pequena", avalia o cientista político Leonardo Martins Barbosa, pesquisador do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap). Para o cientista político Creomar de Souza, professor da Fundação Dom Cabral, Lula tem pela frente uma "missão improvável". "Mas não é impossível", destaca.
Além da pequena diferença de votos, outro aspecto destacado pelos especialistas é o recorde de abstenção, que alcançou 33,4 milhões de eleitores, equivalente a 21,08% do eleitorado apto a votar. Esses dois elementos são vistos como possíveis brechas para Lula na reta final da disputa. "Em termos numéricos, o Lula está com vantagem [em comparação a eleições anteriores], porque ele tem, por exemplo, uma diferença muito menor do que o Jair Bolsonaro tinha dele no primeiro turno em 2022. Mas talvez seja a única diferença. Lula e Bolsonaro foram mandatários que estavam no poder, mas nenhum conseguiu se projetar à frente na disputa", diz a cientista política Luciana Fernandes Veiga, da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio) e da Fundação Getulio Vargas (FGV).
O fato de Lula ocupar a Presidência pode representar um diferencial na busca pela virada, segundo Barbosa. "Ele tem o uso da máquina, e vimos que isso pode ser um fato relevante mesmo em tempos digitais. Em 2022, por exemplo, o ex-presidente Jair Bolsonaro conseguiu diminuir significativamente a diferença para o Lula, que então estava na oposição, fazendo isso ao longo do segundo turno." O desempenho de Flávio Bolsonaro nas urnas, acima do esperado, também complica o cenário para Lula, na avaliação de Barbosa. "O Flávio teve um desempenho acima do esperado. Terminou na frente do Lula. Vindo como candidato da oposição, ele está demonstrando uma força enorme. E eu penso que não apenas o desempenho dele foi melhor do que o do pai em 2022, como a direção geral das eleições está mostrando o crescimento do bolsonarismo no país." Souza lembra ainda que o tempo disponível para Lula reverter o quadro é bastante reduzido. "Qual é a dificuldade nesse processo? É que, basicamente, precisa ser feito em um espaço de tempo muito curto, de menos de 20 dias, para a campanha alcançar grupos que não alcançou até aqui ou que, em algum sentido, foram suavemente perdidos durante esse primeiro turno."
A abstenção elevada é citada como uma possível esperança para Lula no segundo turno, mas os especialistas ponderam que esse estoque de votos também pode beneficiar Flávio Bolsonaro. "Esse nível de abstenção significa dizer que você tem alguma esperança, porque tem um estoque de votos alto. Lembrando que o Flávio também vai potencialmente ter um número maior de votos", diz Souza. Veiga, por sua vez, é cética quanto à capacidade das campanhas de mobilizar os ausentes. "Eu não acho que a abstenção seja tão fácil de tocar via campanha de um candidato, porque ela é histórica. As pessoas sabiam dos candidatos, elas já passaram por esses embates antes e podem ter, por diferentes motivos, decidido se abster." Na eleição presidencial anterior, a diferença de abstenção entre os dois turnos foi pequena: caiu de 32,7 milhões no primeiro turno (20,95%) para 32,2 milhões no segundo (20,59%).
A busca pelo apoio de candidatos derrotados é uma estratégia clássica no segundo turno. Neste ano, porém, Augusto Cury (Avante), com 2,89%, e Renan Santos (Missão), com 2,24%, declararam que não apoiarão nem Lula nem Flávio. Já Ronaldo Caiado (PSD), com 2,18%, e Romeu Zema (Novo), com 0,27%, manifestaram apoio ao candidato bolsonarista. Para Souza, a neutralidade de Cury e Santos pode ser explorada por Lula. "Ao não ter a dinâmica de que são todos contra o Lula, o Lula pode dizer: "Olha, o Flávio não é um candidato tão bom à direita, porque, se ele fosse bom mesmo, esses outros caras que estão se colocando como direita estariam no palanque dele"." Veiga, contudo, avalia que os eleitores de Renan e Cury têm tendência a migrar para Flávio. "Eleitores de Caiado, Cury e Santos escolheram não votar em Flávio no primeiro turno, aproveitando o sistema de dois turnos: no primeiro, vota-se em quem se vê representado. O voto útil, para evitar o que mais se rejeita, fica para o segundo. Ao final, dizem: "Nem Lula nem Flávio são meus preferidos".
Muitos, no entanto, já sabiam que, em um segundo turno, tenderiam a votar em Flávio, pela proximidade ideológica." A cientista política ressalta ainda que a análise do primeiro turno vai além da diferença de 1,9% entre os dois candidatos. "Não são apenas 2,2 milhões de votos a menos para Lula. O PL elegeu 121 deputados federais e 19 senadores. Foi uma vitória muito avassaladora para reduzirmos a análise a esses 2,2 milhões de votos", afirma. Diante desse cenário, Lula chega ao segundo turno com a menor desvantagem já registrada na história recente do país, mas enfrenta obstáculos estruturais que tornam a virada um desafio sem precedentes na política brasileira.



