Itamaraty convoca diplomata argentina para saber papel do governo Milei na fuga

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O Itamaraty chamou a encarregada de Negócios da Argentina para explicar o papel do governo Milei na fuga de Flávio Bolsonaro aos EUA
O Ministério das Relações Exteriores do Brasil, o Itamaraty, convocou a encarregada de Negócios da Embaixada da Argentina no Brasil, María Emilia Cortés, para prestar esclarecimentos sobre o envolvimento do governo de Javier Milei na fuga do senador Flávio Bolsonaro (PL) para os Estados Unidos. O senador, derrotado no segundo turno da disputa presidencial, descumpriu uma ordem do Supremo Tribunal Federal (STF) que o proibia de deixar o país. O governo argentino confirmou que Flávio Bolsonaro embarcou com a família em um avião particular que partiu da Argentina na noite de terça-feira (27/10), com destino ao Equador, onde realizou reabastecimento antes de seguir para Miami, nos Estados Unidos.
De acordo com a imprensa argentina, Santiago Caputo, estrategista político de Javier Milei, esteve em Puerto Iguazú para auxiliar o senador. Em seguida, Flávio divulgou uma carta agradecendo ao presidente argentino pela "coragem, justiça e senso de legalidade". María Emilia Cortés foi recebida na tarde de quinta-feira (29/10) pelo chefe do Departamento do Mercosul do Itamaraty, João Marcelo Galvão de Queiroz, em Brasília. O embaixador solicitou informações sobre a fuga do senador e, segundo diplomatas presentes na reunião, Emilia ficou de transmitir o que foi debatido ao governo de Javier Milei. O procedimento é praxe em casos desse tipo e, de acordo com fontes do Ministério das Relações Exteriores, não estão previstos desdobramentos no momento. A orientação do Itamaraty é adotar uma postura pragmática diante do episódio e não ampliar a relevância do assunto.
Na avaliação do governo brasileiro, a situação de Flávio Bolsonaro é de natureza judicial. Tanto o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) quanto integrantes do governo devem evitar discussões públicas com o governo argentino sobre o caso. Vale lembrar que, até o momento, o presidente da Argentina, Javier Milei, não reconheceu a vitória de Lula na eleição.
**A rota de fuga em jatinho particular**
Flávio Bolsonaro desembarcou nos Estados Unidos na quarta-feira (28/10) após deixar o Brasil com a esposa e as duas filhas. A saída ocorreu depois de o STF determinar que ele entregasse os passaportes à Polícia Federal, em um processo no qual o senador e o advogado Willer Tomaz são investigados por lavagem de dinheiro, em um suposto esquema envolvendo empresas de Tomaz e bets. Os dois confirmam amizade, mas negam ser sócios e cometer qualquer irregularidade. Flávio também é investigado pela Polícia Federal por ter intermediado com Daniel Vorcaro, ex-dono do Master, a doação de R$ 134 milhões para o financiamento do filme "Dark Horse", sob suspeita de lavagem de dinheiro.
A rota de fuga teve início na noite de terça-feira (27/10), quando o senador e a família cruzaram a Ponte Internacional Tancredo Neves, que liga Foz do Iguaçu, no Paraná, a Puerto Iguazú, na província argentina de Misiones. Segundo a Direção Nacional de Migrações da Argentina, a travessia ocorreu às 22h50, pelo horário de Brasília, com documentação válida e sem impedimentos legais para entrar no país. Cerca de 40 minutos depois, às 23h30, Flávio e a família embarcaram em um jatinho particular do modelo Gulfstream G400, de matrícula LV-JQW, pertencente à Baires Fly, empresa argentina de voos privados que já transportou Javier Milei e integrantes de sua equipe.
O avião decolou de Puerto Iguazú às 0h22 de quarta-feira, sobrevoando o Paraguai, a Bolívia e o Peru, evitando o espaço aéreo brasileiro. Às 5h46, pelo horário de Brasília, a aeronave pousou no aeroporto de Guayaquil, no Equador, onde o senador permaneceu por menos de uma hora. O avião decolou novamente às 6h22 e pousou às 10h24 no Aeroporto Executivo de Fort Lauderdale, na Flórida, região de Miami. Agentes de imigração dos EUA permitiram que Flávio Bolsonaro e sua família ingressassem no território norte-americano com uma autorização temporária, geralmente concedida por razões humanitárias. Um registro público do governo dos Estados Unidos indica que o filho mais velho de Jair Bolsonaro apresentou seu passaporte diplomático brasileiro cancelado ao chegar ao país, segundo o jornal "New York Times". Na terça-feira (27/10), um representante do Departamento de Estado dos EUA já havia informado que o governo norte-americano concederia vistos a Flávio Bolsonaro e à família e permitiria a entrada deles no país. O episódio coloca em evidência as tensões diplomáticas entre Brasil e Argentina, ainda que o Itamaraty sinalize que o caso deve ser tratado com discrição, sem escalar o conflito entre os dois governos.



