Flávio reorganiza estratégia do 2º turno após vantagem reduzida em pesquisas

Senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) - Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil
Com vantagem reduzida nas pesquisas e derrotas legislativas, Flávio Bolsonaro reorganiza estratégia para o segundo turno
A campanha de Flávio Bolsonaro (PL) tenta reorganizar sua estratégia para os últimos dez dias do segundo turno das eleições municipais, diante da redução da vantagem sobre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) nas pesquisas e de resultados desfavoráveis à oposição no Congresso. O novo levantamento do Datafolha, divulgado na quinta-feira (15/10), mostrou Flávio Bolsonaro com 51% dos votos válidos, contra 49% de Lula, configurando um empate técnico dentro da margem de erro de dois pontos percentuais. Na pesquisa anterior, a diferença era de quatro pontos, com 52% para o candidato do PL e 48% para o petista. As derrotas recentes do campo oposicionista incluíram a aprovação do fim da escala de trabalho 6×1, uma das principais bandeiras do adversário petista, e o impasse sobre a redução da maioridade penal, que resultou no adiamento da votação da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) da Segurança Pública.
A aprovação da PEC que encerra a escala 6×1 colocou Flávio Bolsonaro diante de uma pauta que vinha criticando desde o primeiro turno. O senador, que chegou a classificar a medida como "oportunista", anunciou na terça-feira (13/10) que votaria a favor da redução da jornada de trabalho. Naquele mesmo dia, Flávio Bolsonaro visitou o pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), em Brasília, antes de anunciar a mudança de posição. A virada se deu em razão do apoio popular à proposta, inclusive entre eleitores do próprio candidato. O texto, apresentado originalmente em 2019 pelo deputado Reginaldo Lopes (PT-MG), tornou-se uma das principais bandeiras de Lula na campanha e prevê a redução gradual da jornada de 44 para 40 horas semanais, com dois dias de descanso remunerado e sem redução salarial. Na quarta-feira (14/10), o Senado aprovou a PEC em dois turnos, com 75 votos favoráveis. Flávio Bolsonaro não esteve no plenário e votou remotamente, enquanto cumpria agenda de campanha em Porto Alegre (RS). O coordenador de sua campanha e líder da oposição no Senado, Rogério Marinho (PL-RN), não participou das votações. Marinho vinha articulando o adiamento da análise da matéria para depois das eleições e defendia uma proposta alternativa, com maior liberdade para negociação individual da jornada de trabalho. Apesar do voto favorável de Flávio Bolsonaro, integrantes de sua campanha admitem discutir mudanças nas regras caso ele seja eleito. O candidato defende que o governo compense as empresas pelos custos adicionais da redução da jornada, mas ainda não apresentou uma estimativa de quanto seria necessário para financiar a medida.
Na área de segurança pública, a oposição tentou inserir a redução da maioridade penal na PEC enviada pelo governo Lula ao Congresso. A proposta já havia sido aprovada pela Câmara dos Deputados sem a mudança, retirada durante as negociações para viabilizar a votação. Marinho apresentou uma emenda para reduzir a maioridade penal de 18 para 16 anos, com previsão de responsabilização a partir dos 14 anos em determinados crimes graves. A iniciativa recebeu o apoio de Flávio Bolsonaro, que tem defendido punições mais rígidas como uma das bandeiras de sua campanha. O movimento também provocou divergências dentro do PT. O líder do partido no Senado, Camilo Santana (CE), que integra a coordenação da campanha de Lula, apresentou uma alternativa para reduzir a maioridade penal apenas para 16 anos em crimes hediondos. A proposta não teve consenso entre os governistas, que defendiam a aprovação da PEC da Segurança sem alterações. O impasse levou o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), a retirar a matéria da pauta na quinta-feira. A estratégia teve um efeito contrário ao pretendido pela campanha de Flávio Bolsonaro: a discussão sobre a maioridade penal não resultou na inclusão da medida, enquanto a PEC da Segurança ficou sem previsão de votação. A retirada provocou um bate-boca entre Marinho e Alcolumbre no plenário.
O líder da oposição questionou se a decisão havia sido tomada a pedido do governo, mas o presidente do Senado afirmou que agiu por iniciativa própria. Mais tarde, em declaração a jornalistas, Marinho acusou Alcolumbre de atuar em favor de Lula. "Nós só podemos fazer uma avaliação. O presidente Davi, a serviço do governo, abrindo mão da sua posição de magistrado, mais uma vez fica de costas para a sociedade", criticou o senador. O coordenador da campanha de Flávio Bolsonaro também comparou Alcolumbre ao rei francês Luís XIV. "Não tenha dúvida, a fala do presidente Davi foi, parafraseando o Luís XIV, "O Estado sou eu", né?", declarou. A líder do governo no Senado, Teresa Leitão (PT-PE), rebateu as críticas e afirmou que o debate sobre a maioridade penal será feito separadamente. "Nós não vamos ceder a esta chantagem da oposição", disse Teresa a jornalistas.
A Federação União Progressista, formada por União Brasil e PP, e o Republicanos abandonaram a neutralidade adotada na primeira etapa da eleição e declararam apoio ao candidato do PL. A adesão, porém, não significou alinhamento dos partidos ao bolsonarismo. Na quarta-feira, dirigentes de legendas do Centrão anunciaram a manutenção do bloco político que sustenta Hugo Motta (Republicanos-PB) e o apoio às articulações para sua recondução à Presidência da Câmara, em fevereiro de 2027. O grupo reúne União Brasil, PP, PSD, Republicanos, MDB, Podemos e PSDB-Cidadania, além da federação Solidariedade-PRD, somando 234 deputados eleitos para a próxima legislatura. A decisão contraria a intenção de integrantes do PL de aproveitar o crescimento da bancada para lançar um candidato próprio ao comando da Câmara. O partido elegeu 121 deputados e discute os nomes de Sóstenes Cavalcante (RJ) e Altineu Côrtes (RJ) para disputar a presidência da Casa. Motta, por sua vez, declarou apoio à reeleição de Lula e participou de atos de campanha do petista na Paraíba, além de ter contribuído para o avanço de propostas do governo, como a PEC da 6×1 e o projeto que amplia o faturamento permitido aos microempreendedores individuais (MEIs).
Outra frente de reação de Flávio Bolsonaro deverá se concentrar nos custos das medidas anunciadas por Lula às vésperas do segundo turno. Além da redução da jornada, o governo aprovou a ampliação do limite de faturamento dos MEIs, anunciou reajuste do Bolsa Família e prometeu uma PEC para oferecer transporte público gratuito nos fins de semana. No caso do MEI, o projeto aprovado pelo Senado prevê renúncia bilionária de arrecadação, sem fonte específica de compensação. Para o reajuste do Bolsa Família, a equipe econômica trabalha com um remanejamento de aproximadamente R$ 22 bilhões no Orçamento de 2027. A falta de definições sobre o financiamento abre espaço para a campanha de Flávio Bolsonaro questionar os impactos fiscais das promessas, especialmente diante de empresários e representantes do mercado financeiro. O candidato do PL também mantém conversas com o setor produtivo.
Na terça-feira (13/10), participou de um encontro com cerca de 500 empresários em São Paulo, no qual recebeu um documento com propostas de reformas econômicas. O material inclui aumento da idade mínima de aposentadoria para 67 anos, mudanças na vinculação dos benefícios previdenciários ao salário mínimo e revisão dos critérios de concessão e permanência no Bolsa Família. A equipe de Flávio Bolsonaro também prepara uma nova mobilização de apoiadores e a participação no primeiro debate direto com Lula nesta etapa da eleição. O candidato chegou a sinalizar que não compareceria ao debate da Band, mas recuou na quarta-feira (14/10), depois de aliados alertarem para o possível desgaste provocado pela ausência. Lula já havia confirmado a participação. O confronto será a primeira oportunidade de os dois candidatos debaterem pessoalmente as propostas nesta campanha.



