Novo exame de sangue amplia diagnóstico de Alzheimer no Brasil

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Exame detecta proteína p-tau217 no sangue e chega ao Brasil pelo Hospital Moinhos de Vento, em Porto Alegre, ampliando o diagnóstico do Alzheimer
Um exame de sangue capaz de identificar marcadores do Alzheimer chegou ao Brasil pelo Hospital Moinhos de Vento, em Porto Alegre. Disponível desde o dia 15 de outubro, o teste detecta a proteína p-tau217 no sangue, um indicador das placas beta-amiloide presentes no cérebro de pessoas com a doença. A instituição conduziu estudos para validar a acurácia do exame antes de oferecê-lo aos pacientes. Para compreender o que o teste busca, é preciso entender o que acontece no cérebro de quem desenvolve Alzheimer. As placas de beta-amiloide não surgem de repente. "Elas vão se formando ao longo de muitos anos e, com o tempo, criam um processo inflamatório ao seu redor", explica o neurologista Wyllians Borelli, pesquisador à frente do Centro de Memória do hospital gaúcho. "Então, passam a soltar o que chamamos de oligômeros, que são pequenas fibras." Essas fibrilas de amiloide se instalam na fenda sináptica, o espaço entre um neurônio e outro, dificultando a comunicação entre as células nervosas.
O impacto dessa interferência se torna perceptível no cotidiano do paciente. Dentro dos neurônios, existem túbulos que funcionam como vigas microscópicas, feitas de proteína tau. No Alzheimer, a presença das fibrilas leva essas estruturas a se desestabilizarem em uma região específica, conhecida por 217. "Só o Alzheimer faz isso acontecer nesse pedaço da "viga"", esclarece Borelli. "Então, a proteína que estava ali escapa da célula, vaza para o líquor, o líquido que banha o cérebro, e um pouco termina alcançando o sangue." A quantidade de p-tau217 que chega à corrente sanguínea é extremamente pequena. Segundo o neurologista, apenas em 2018 surgiram tecnologias ultrassensíveis capazes de detectá-la.
O teste disponível no Brasil representa a geração mais recente dessas tecnologias, baseada em eletroquimioluminescência: uma reação que emite sinais luminosos tão sutis que só o equipamento do exame consegue captá-los. "Depois de coletarmos a amostra de sangue, o laboratório separa o plasma, que é a parte líquida", descreve Borelli. "Mas ainda existe um monte de substâncias nadando ali. Daí que, para flagrar o bocadinho de proteína p-tau217 misturada ao resto, juntam-se ao plasma anticorpos criados em laboratório." Esses anticorpos foram desenvolvidos para se ligar aos fragmentos das estruturas destruídas, e ao fazerem isso, emitem luz, que é registrada pelo equipamento para dosar a substância. Além de ser menos invasivo do que a punção lombar para coleta de líquor, o exame de sangue abre perspectivas importantes para populações com dificuldade de acesso à saúde. "O ponto mais positivo, porém, é a chance de, um dia, levar esse exame a pessoas que não conseguem mais sair de casa por algum motivo, que vivem no meio de comunidades vulneráveis ou que precisariam viajar duas horas até um posto de saúde, como é o caso de populações ribeirinhas", opina Borelli. "Elas não precisariam se deslocar. Afinal, em qualquer lugar, é possível coletar sangue, algo bastante simples, refrigerar e mandar para o laboratório." O sangue também é mais estável no transporte do que o líquor, que pode gerar falsos negativos se agitado. Atualmente, o exame está disponível apenas na saúde privada.
O Hospital Moinhos de Vento conduz estudos de custo-efetividade para apresentar à Conitec, a Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS. "Se mais gente se submeter ao exame, o custo cairá, ficando talvez na faixa dos R$ 300", estima o médico. O teste ainda não é indicado para pessoas sem sintomas. "Hoje, só o pedimos quando existe uma queixa de esquecimento e isso é confirmado, de maneira muito objetiva, por testes de cognição", esclarece Borelli. "Ou seja, é uma indicação para quem tem um quadro de comprometimento cognitivo leve." O exame, sozinho, também não fecha o diagnóstico de Alzheimer. Ele é somado ao histórico do paciente, a exames clínicos e de imagem. Uma pessoa pode ter placas de beta-amiloide com pouca inflamação nos neurônios e evoluir tão lentamente que a doença nunca chegue a se manifestar. Além disso, outras causas de esquecimento precisam ser descartadas, incluindo problemas renais, hepáticos e deficiência de vitamina B12. "Se encontramos um comprometimento cognitivo leve, placas de beta-amiloide no cérebro e proteína p-tau217 no sangue, precisamos entrar de uma vez com todo o arsenal que conhecemos para proteger o cérebro, sem deixar nada de lado", afirma Wyllians Borelli. Isso inclui os medicamentos mais recentes voltados à remoção das placas cerebrais, mas também o controle de fatores de risco.
O neurologista cita o estudo LatAm-FIGERS, publicado há três meses, sobre prevenção do declínio cognitivo na América Latina por meio de mudanças no estilo de vida. Entre as recomendações estão combater o sedentarismo, adotar uma dieta equilibrada e controlar hipertensão, colesterol, diabetes e excesso de peso. Cuidar da audição e da visão também é fundamental, pois ouvir mal e enxergar com dificuldade contribuem para o avanço do Alzheimer. A depressão merece tratamento, já que acelera a progressão da doença. Quedas devem ser evitadas, pois traumas na cabeça prejudicam a cognição. E o consumo de álcool deve ser eliminado. Por outro lado, a convivência social com família e amigos é, segundo a ciência, um fator relevante de proteção cerebral. O exame de sangue para Alzheimer representa um avanço no diagnóstico precoce da doença no Brasil, com potencial de ampliar o acesso ao diagnóstico e permitir intervenções mais rápidas para frear sua progressão.



