
Trabalhadores da construção civil em canteiro de obras - Foto: Leo Drumond / NITRO
A expansão da infraestrutura do Brasil começou a esbarrar em um problema que cresce silenciosamente dentro do setor: a escassez de mão de obra qualificada. Enquanto investimentos bilionários avançam em áreas como logística, energia, saneamento e mobilidade, empresas relatam dificuldades cada vez maiores para contratar engenheiros, técnicos e operadores especializados. O alerta ganhou força após um estudo do Sinicon, publicado no dia 12 de maio, reunir dados que mostram um cenário preocupante para os próximos anos.
O Brasil já enfrenta um déficit profissional de aproximadamente 75 mil engenheiros, segundo a Confederação Nacional da Indústria (CNI), e as projeções do Confea indicam que esse número pode chegar a 500 mil até 2030. Ao mesmo tempo, o país vive um ciclo histórico de investimentos. Apenas em 2025, os aportes em infraestrutura somaram R$ 280 bilhões, de acordo com a Abdib. Mesmo assim, especialistas afirmam que a falta de profissionais pode atrasar obras bilionárias e elevar custos em diferentes regiões do país.
Segundo levantamento apresentado pelo Sinicon, o número de matrículas em cursos de engenharia caiu cerca de 30% na última década. Em 2015, o país registrava aproximadamente 1,2 milhão de estudantes nessas graduações. Em 2024, esse total recuou para 887 mil alunos. Na prática, isso significa menos profissionais entrando no mercado justamente em um momento de alta demanda por especialistas.
O diretor-executivo do Sinicon, Humberto Rangel, avalia que o problema já ameaça o desenvolvimento econômico do país. Para ele, a ausência de profissionais qualificados pode comprometer tanto a velocidade quanto a qualidade das grandes obras planejadas para os próximos anos. Outro dado que preocupa envolve o interesse dos jovens pela área: pesquisa do CIEE em parceria com o Instituto Locomotiva mostrou que apenas 12% dos estudantes do ensino médio pretendem cursar engenharia.
A infraestrutura do Brasil atravessa um dos períodos mais relevantes da última década em volume de investimentos. Dados da Abdib apontam que os aportes no setor chegaram a R$ 280 bilhões em 2025, superando o recorde anterior registrado em 2014, antes da retração econômica causada pela crise da década passada. Mesmo com o avanço dos investimentos, empresas enfrentam dificuldades para preencher vagas essenciais em projetos de transporte, saneamento e energia, e algumas obras bilionárias já começam a registrar atrasos por falta de equipes técnicas completas. A construção pesada está entre os setores mais afetados pelo avanço do déficit profissional. Segundo a Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC), cerca de 90% das construtoras brasileiras relatam dificuldades para contratar trabalhadores especializados.
O presidente da Comissão de Infraestrutura da entidade, Carlos Eduardo Lima Jorge, comentou recentemente que a escassez se agravou de maneira acelerada desde 2025, atingindo inclusive áreas que antes tinham maior disponibilidade de profissionais. Em algumas funções, o cenário é ainda mais crítico. Profissionais como laboratoristas de pavimentos — responsáveis pelo controle técnico de solos e pavimentação de rodovias — praticamente desapareceram do mercado em algumas regiões. Esse movimento aumentou a concorrência entre empresas da construção pesada, que passaram a disputar engenheiros e técnicos com salários mais altos e benefícios mais agressivos.