
Gabriel Galípolo (Lula Marques/ Agência Brasil/Divulgação)
O presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, classificou o Banco Master como uma instituição de "terceira divisão" do sistema financeiro brasileiro durante audiência na Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) do Senado, realizada nesta terça-feira (18/5).
A declaração veio em meio a um amplo debate sobre as investigações que envolvem a instituição, liquidada pelo BC em novembro do ano passado. Ao explicar a classificação interna usada pela autarquia, Galípolo recorreu a uma analogia esportiva: "Ele é um banco S3", afirmou.
"Para explicar, e espero que os outros bancos S3 não se ofendam, (era) da terceira divisão do futebol que é o sistema financeiro brasileiro". Segundo o presidente do BC, o Master não representava risco sistêmico por corresponder a menos de 0,5% dos ativos do sistema financeiro nacional. O que mais gerou preocupação, segundo ele, foi o destino dado ao dinheiro depositado na instituição.
O Banco Master chamava atenção no mercado financeiro por oferecer CDBs (Certificados de Depósito Bancário) com altos retornos, amparados pela garantia do FGC (Fundo Garantidor de Créditos), fundo privado que cobre aplicações de até R$ 250 mil. A Polícia Federal conduz uma série de investigações sobre o banco, apurando suspeitas de fraudes financeiras, lavagem de dinheiro e uso de recursos públicos. As apurações também revelaram gastos milionários com festas e despesas de autoridades políticas.
Servidores do Banco Central afastados
No âmbito das investigações, dois servidores do BC foram afastados por envolvimento no caso. A investigação interna da autarquia concluiu que o ex-chefe de Supervisão Bancária Belline Santana simulou dois contratos, somando R$ 4 milhões, com um advogado ligado ao Banco Master para receber propina.
O ex-diretor de Fiscalização Paulo Sérgio Neves de Souza também foi afastado, sendo suspeito de ter manipulado informações sobre a atuação do Master quando chefiava a área de Fiscalização, durante a gestão de Roberto Campos Neto, para afastar suspeitas da cúpula do órgão e driblar investigações internas. Diante dos senadores, Galípolo afirmou que somente a Justiça poderá determinar o que realmente aconteceu, e que "todo o corpo técnico sente um efetivo luto com o que aconteceu." Os indícios, ressaltou o presidente do BC, são graves.
Galípolo também aproveitou a audiência para pedir apoio dos senadores à PEC (Proposta de Emenda à Constituição) que garante autonomia financeira ao BC e à atualização das regras de resolução bancária, que afetam, por exemplo, os Raets (Regime de Administração Especial Temporária). A legislação vigente sobre o tema é de 1975. "Infelizmente, o histórico é: toda vez que a gente entrou num Raet, o banco acabou sendo liquidado, a gente não conseguiu recuperar uma instituição. A sensação que nós temos é a de que temos menos instrumentos do que outras instituições", disse.
Pressão política e o caso BRB-Master
Galípolo também rebateu questionamentos do senador Renan Calheiros (MDB-AL) sobre a postura do BC diante de pressões políticas, especialmente em relação ao veto à compra do BRB (Banco de Brasília) pelo Master. Renan cobrou uma reação pública de Galípolo à articulação do centrão para dar ao Congresso Nacional poderes para demitir diretores e o presidente do BC. "Foi um fato gravíssimo e nunca vi o senhor falar disso", afirmou o presidente da CAE. "Não tivemos uma reação pública do senhor. Era pedagógico para delimitar a independência do Banco Central."
A articulação do centrão foi tornada pública no dia 2 de setembro de 2025, véspera da decisão do BC que indeferiu o pedido do BRB para comprar o Master. Galípolo respondeu que a própria decisão tomada no dia seguinte foi a resposta mais contundente: "Ela foi pedagógica. No dia seguinte, o Banco Central teve coragem de rejeitar." E acrescentou: "O Banco Central não é palanque, toma decisão correta independentemente de quem está jogando pedra e fazendo barulho."
O presidente do BC defendeu que não cabe à autarquia se envolver em disputas políticas. "É muito importante para a autonomia e para a credibilidade do Banco Central que ele não seja arrastado para esse tipo de debate", afirmou. Sobre a ofensiva do centrão ser uma tentativa de coerção, Galípolo foi cauteloso: "Quem sou eu pra dizer isso, quem sou eu para fiscalizar o Legislativo, eu sou fiscalizado."
Renan também afirmou que, em outra audiência na CAE, Galípolo teria dito que "à primeira vista, a operação BRB-Master estava correta." O presidente do BC negou a afirmação: "Jamais diria isso, até porque o Banco Central não comenta substituição de particular." Galípolo ainda ironizou, dizendo que apenas uma pessoa sem acesso à internet e sem TV a cabo acharia que o BC trabalhou pela venda do Master.