
Foto: Banco Central/Reprodução
O diretor de Política Monetária do Banco Central (BC), Nilton David, reafirmou nesta terça-feira, 19, que a autarquia não tem intenção de interferir no valor do dólar. Durante conferência organizada pelo Santander, na qual participou por videoconferência, ele reiterou que as intervenções no câmbio ocorrem apenas em situações de disfuncionalidade do mercado. "Só para deixar claro desde o começo: o real é uma moeda de câmbio flutuante. Nós não temos absolutamente nenhuma intenção de interferir na formação de preço. Só vamos intervir no mercado quando e se ele ficar disfuncional. Todo o resto é manutenção do funcionamento do mercado", declarou Nilton David durante o evento.
O diretor lembrou que a última intervenção do BC no câmbio ocorreu em 2024 e que, em geral, a autarquia atua apenas para garantir o bom funcionamento do mercado. Nilton David esclareceu ainda que o BC não trabalha com uma meta de swaps cambiais. Ele reconheceu que o BC pode cometer falhas e, eventualmente, gerar ruídos, mas destacou que o objetivo é minimizar ao máximo a interferência na formação de preços. "A última coisa que queremos é interferir. E mais: não temos a arrogância de achar que conseguimos controlar nível, volume em aberto e volatilidade", assinalou Nilton David.
Nilton David afirmou que o crescimento do Brasil "provavelmente" voltou à neutralidade neste momento, avaliando que o cenário atual não é de expansão acima do potencial. "A situação melhorou", observou durante a palestra. Ele reconheceu que o País vem crescendo acima das expectativas de forma consecutiva nos últimos quatro anos e admitiu as limitações dos modelos para prever e medir o crescimento da economia.
Segundo Nilton David, o Brasil enfrentou não apenas os choques incomuns da economia global, mas também diversas ondas de estímulos e mudanças econômicas desde a pandemia, o que torna mais difícil avaliar com precisão o grau de confiabilidade e a significância dos dados. O diretor frisou que o modelo utilizado pelo BC é "bastante sensível" ao hiato do produto e que, à medida que a economia cresceu acima do esperado, foi necessário ajustar as estimativas de hiato, que também foram incorporadas ao modelo de inflação. "O que aconteceu, na prática, foi que o hiato do produto, que esperávamos que convergisse para um nível neutro há algum tempo, acabou não se movendo na velocidade antecipada. Ele até convergiu, mas de maneira mais lenta do que imaginávamos", observou.
Essa convergência lenta, segundo Nilton David, sugere um impulso forte na economia que a política monetária vinha tentando conter. "No entanto, esse efeito restritivo não foi tão eficaz quanto esperávamos, justamente porque essas diferentes ondas de estímulo foram mais intensas do que a maioria imaginava", frisou. Ele pontuou, porém, que os ajustes em torno do hiato estão sendo feitos de forma gradual. "Se concluirmos que o hiato do produto ainda não se encontra em um nível neutro, trabalharemos levando isso em consideração", salientou. Nilton David acrescentou que analistas mais hawkish consideram que o hiato está diminuindo. "Em outras palavras, mesmo aqueles que não acreditam que ele já esteja neutro reconhecem que a direção do movimento é de fechamento do hiato."
O diretor do BC afirmou que ainda não há sinais claros de encerramento do conflito no Irã. A avaliação da autarquia, segundo ele, é de que mesmo que o conflito terminasse amanhã, os preços de energia levariam algum tempo para retornar aos níveis anteriores. "Se é que retornarão", ponderou. Nilton David considera que o choque do petróleo tende a desacelerar as perspectivas globais para o Produto Interno Bruto (PIB), implicando também em uma inflação global mais elevada no futuro. "Tudo isso torna nosso trabalho mais desafiador. Mas temos plena consciência desses fatores e já os estamos incorporando tanto em nossa política monetária quanto nas decisões que tomaremos daqui para frente", afirmou durante a palestra organizada pelo Santander.
Nilton David reiterou que todas as decisões da autarquia terão como objetivo o cumprimento da meta de inflação. Em contrapartida, ele reconheceu que o Brasil se encontra em uma posição mais favorável diante do choque do petróleo. "Diferentemente das crises anteriores do petróleo, tanto o Brasil quanto os Estados Unidos eram importadores líquidos de petróleo naquelas ocasiões. Hoje, não somos mais. Portanto, do ponto de vista das contas externas, não há qualquer problema relevante", frisou. As declarações de Nilton David reforçam a postura do Banco Central de preservar o regime de câmbio flutuante e de atuar no mercado apenas em situações excepcionais, ao mesmo tempo em que a autarquia monitora de perto os impactos do cenário externo e do hiato do produto sobre a política monetária brasileira.