
Johnny Massaro como Márcio para a série "Emergência Radioativa" - Foto: Divulgação Netflix
O que parecia apenas uma substância esquecida dentro de uma embalagem improvisada revelou o maior acidente radiológico do Brasil — e colocou um jovem físico de 29 anos no centro de uma decisão que salvaria vidas
No fim de setembro de 1987, uma substância desconhecida chegou até a Vigilância Sanitária de Goiânia. Ela já havia circulado por diferentes locais da cidade — passando por mãos de moradores, casas e estabelecimentos — sem que ninguém soubesse exatamente o que era.
Foi nesse momento que surgiu a figura central desta história.
Aos 29 anos, o físico Walter Mendes Ferreira foi chamado para analisar o material. O que poderia ser apenas mais um atendimento técnico rapidamente se transformou em algo muito maior.
Com o auxílio de um equipamento de medição de radiação ionizante, Walter identificou o que poucos imaginavam: tratava-se de material altamente radioativo. O risco era imediato.
A orientação veio sem margem para dúvida: evacuação urgente.
A partir daquele instante, o caso deixou de ser um episódio isolado e passou a ser reconhecido como o maior desastre radiológico da história do Brasil. O acidente foi oficialmente comunicado à Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN), que posteriormente notificou a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), dando início a uma mobilização de escala internacional.
Mas a atuação de Walter não parou na identificação.
Em meio ao caos, ele seguiu trabalhando diretamente com as vítimas, muitas delas já apresentando sintomas graves de contaminação. Era necessário alguém para assumir a linha de frente — e ele assumiu.
Anos depois, ao relembrar o episódio, o físico resumiu o impacto daquele momento:
“Sofremos uma mudança brusca. Na época, eu tinha 29 anos. A maioria das pessoas ficou doente. Precisava ter alguém à frente.”
Natural de Minas Gerais, Walter Mendes Ferreira construiu sua trajetória na área de proteção radiológica e segurança nuclear. É formado em física, com pós-graduação pela Universidade de Buenos Aires e mestre em engenharia nuclear pelo Instituto Militar de Engenharia (IME).
Décadas após o acidente, ele segue atuando na área e ocupa o cargo de chefe da Divisão de Emergências Radiológicas da CNEN.
Sua atuação no desastre também inspirou representações na cultura popular. O personagem interpretado pelo ator Johnny Massaro na minissérie “Emergência Radioativa”, da Netflix, foi baseado em sua experiência durante o episódio.
Mais do que uma tragédia, o acidente com o césio-137 deixou mudanças profundas na forma como o mundo lida com riscos nucleares.
Segundo o próprio Walter, diversas práticas e protocolos foram criados ou aprimorados a partir do caso: radioproteção, descontaminação de áreas, comunicação com a população e estruturação de respostas institucionais para emergências desse tipo.
Também houve um esforço contínuo para transformar o episódio em aprendizado. Programas educativos passaram a ser implementados, com palestras e cursos voltados a estudantes e à sociedade, buscando esclarecer riscos e ampliar a compreensão sobre o uso da tecnologia nuclear.
Quase quatro décadas depois, o desastre ainda ecoa — não apenas pelas vítimas, mas pelas lições deixadas.
E a pergunta que abre esta história encontra sua resposta:
Sim, existiu um físico que ajudou.
E a decisão que ele tomou naquele dia mudou o rumo de tudo.