Feito Pipa vai representar o Brasil no Oscar

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Dirigido por Allan Deberton, "Feito Pipa" venceu em Gramado e foi escolhido para representar o Brasil no Oscar 2027
Para explicar a relação entre Gugu e a avó Dilma, eixo central da trama de "Feito Pipa", o roteirista André Araújo recorre a um termo regional bastante conhecido no interior cearense, onde foi criado. ""Arenga" é uma forma de manifestar amor por meio da briga, por meio do conflito. E é isso que acontece muito entre os dois. Eles estão o tempo todo ali se amando, se arengando, brigando, brincando...", explica Araújo, apontando as raízes cômicas e dramáticas que percorrem a trama do filme, dirigido por Allan Deberton e escolhido para representar o Brasil no Oscar 2027. "Feito Pipa" estreia nesta quinta-feira nos cinemas e carrega muito do "eu criança" do roteirista, nascido em Russas, no Ceará. "Acho que consegui emprestar um pouco de mim a Gugu.
Como exercício de criação, a gente vai tentando experimentar inúmeros lugares, até que chega em um momento que acaba se enxergando naquilo que está escrevendo. Em uma das consultorias, o (cineasta) Karim Aïnouz fez um comentário que mudou até mesmo a forma como eu enxergava o projeto. Ele chegou para mim e disse assim: "André, o Gugu é a criança que você não conseguiu ser"", recorda Araújo. "Não sou eu, mas, de alguma maneira, é como eu me realizo. É onde eu consigo trazer um pouco da relação com a minha avó, que foi quem me criou e a quem eu chamava de "mãe". Muito dessa história está na relação da Dilma com o Gugu", afirma o roteirista. Dilma é interpretada por Teca Pereira, ganhadora do Kikito de Melhor Atriz no Festival de Cinema de Gramado. Já Gugu é vivido pelo estreante baiano Yuri Gomes, que recebeu uma menção especial na premiação da Serra Gaúcha. Lázaro Ramos, que interpreta o pai que repreende o jeito feminino do garoto, levou o troféu de ator coadjuvante. O ponto de partida do roteiro teve inspiração no estado vizinho Rio Grande do Norte, mais especificamente em São Rafael, cidade inundada pela barragem Armando Ribeiro Gonçalves. "Aquilo me afetou bastante, pois na época estava fazendo um trabalho de faculdade sobre os impactos subjetivos da obra na vida das pessoas que foram remanejadas para a nova cidade", lembra Araújo, formado em Comunicação Social pela Uern, em Mossoró.
A imagem de uma igreja submersa, presente em "Feito Pipa", foi uma das que marcaram o então estudante. "Decidi escrever um filme pensando na questão da memória. A partir daí, o filme foi se revelando. Porque criar também é reimaginar uma paisagem, reimaginar um cenário. No "Feito Pipa", eu consegui reimaginar o meu sertão. Era um sertão possível", analisa. Satisfeito com o resultado, Araújo destaca que um de seus objetivos foi ver crianças queer sendo representadas. "Eu queria que o personagem (Gugu) realmente transitasse entre gêneros, entre o masculino e o feminino. E acho que essa é a potência do filme. Esse filme é o que minha criança gostaria de ter visto lá atrás", frisa. Num extremo oposto, mas também cheio de nuances, está o personagem vivido por Lázaro Ramos. "A construção dele foi muito coletiva. E isso é importante para um papel como esse. Ele poderia esbarrar a qualquer momento num estereótipo, em algo com que a gente não se identifica. Desde os ensaios a gente falou muito sobre onde é que nasceu o amor desse homem.
Na verdade, ao ver o filme, a gente fica o tempo todo em dúvida, sobre onde pode haver semelhança e impossibilidade. Foi um processo muito bonito, a partir da conexão com as outras pessoas do elenco", comenta o ator. Lázaro Ramos destaca ainda a importância do trabalho de edição no resultado final. "Em alguns momentos, a gente fazia opções de cena, opções de tons, e eu não sabia exatamente como é que o personagem ia ficar. Fui à casa do Allan, um tempo atrás, e vi que a escolha dos takes da edição foi o que de melhor poderia oferecer para o filme. Apesar de esbarrar em várias situações de dor, ele traz uma esperança para a gente, um alimento. Não é um filme que, dentro desses temas que são tão duros, faz a gente sair para baixo do cinema. Pelo contrário. Ele vai nos levar a refletir e a nos conectar com esses personagens". Yuri Gomes foi selecionado após o diretor Allan Deberton testar mais de 700 crianças. "Foi muito desafiador encontrar o Gugu. Boa parte de nosso trabalho de preparação foi com o elenco infantil. Uma coisa fundamental nesse processo foi o fato de não entregarmos o roteiro para ele e as outras crianças. Naquela época, ele tinha 10 anos e seria impossível fazer com que lesse 90 páginas. A gente conversava com eles sobre o tema da cena, e as crianças podiam aplicar isso com as palavras delas. Foi isso que trouxe o tom de naturalidade do filme. Eles estavam ali representando papéis, mas a partir de uma vivência pessoal", avalia o diretor.
Após a exibição de "Feito Pipa" no Festival de Gramado, Lázaro Ramos fez uma revelação sobre seu processo de escolha de projetos. Segundo o ator, ele leva em consideração a "mensagem que pretende enviar ao mercado e ao público", aproveitando o fato de ser um ator de renome. Esse critério se sobrepõe até mesmo à avaliação do roteiro na hora de decidir por um novo trabalho. "Sendo bem sincero: a leitura do roteiro não é o meu único fator de decisão. Vou muito pelas pessoas de quem estarei perto. Vou muito pelas pessoas com quem posso me inspirar e aprender", frisa. "Às vezes a minha presença em algum projeto pode provocar algo para a nossa reflexão coletiva. Não fugindo da minha responsabilidade como amante do cinema brasileiro, como ator que foi abraçado pelo cinema brasileiro, eu escolho (projetos) também para mandar mensagens para o mercado e para o público, sobre quais gêneros a gente precisa experimentar, sobre como está o cinema de autor no Brasil", afirma Ramos, que conheceu Deberton no Festival de Gramado de 2019, quando "Pacarrete", primeiro longa do diretor, foi o grande vencedor.



