
Claudia Matarazzo: ''A beleza dos corpos adivinhados''
Da abdicação real à era da pele exposta: um ensaio sobre desejo e intimidade
“A única nudez que vale a pena é a da pessoa de quem nós estamos tirando a roupa “
A frase é de Wallis Simpson, a americana plebeia que fez Eduardo VIII, então rei da Inglaterra abdicar, renunciando por amor ao trono em um gesto que ecoaria nos salões do planeta por décadas.
Wallis não era bonita, nem aristocrática e muito menos rica. Mas era esperta e observava. Além de ser uma sobrevivente: mulher, divorciada no inicio do século XX em uma América provinciana e machista.
Não teve outro jeito senão se virar. Viajava e conquistava amigos nas altas rodas - e também nas mais boêmias - graças a sua verve, tenacidade e, porque não dizer, seu charme - que incluía falar as coisas como eram sem dourar pílulas, doesse a quem doesse….
Quando conheceu Eduardo VIII foi tiro e queda: ele tímido, ela escolada ( sim a história é bem parecida com a de Harry o sobrinho bisneto dele e Meghan Markle).
Eduardo abdicou do trono, seu irmão assumiu e família virou as costas ao casal - que foi morar na França e ali morreram bem idosos em uma linda vila. Sempre juntos, cúmplices e muito festejados no resto do mundo…
Na década de 60 começaram a ficar mais populares as praias de nudismo e o naturismo.
Durante um jantar, seu vizinho de mesa insistia em falar das tais praias e contar detalhes da nudeza alheia. Incomodada, Wallis, que com o casamento tornou-se Duquesa de Windsor, aguardou uma pausa e proferiu essa frase que, quase 70 anos depois faz mais sentido do que nunca !
Vivemos a era da pele exposta e da nudez banalizada - não nas praias onde é até salutar, mas nas redes sociais e também no dia a dia, onde nos roubaram o prazer de adivinhar formas e cheiros. Somos sufocados por ambos: pelas formas, super dimensionadas por supostas harmonizações e os cheiros, mascarados por excessos de perfumes pouco sutis.
Sutileza aliás é conceito em extinção. Voltando a frase de Wallis: o prazer de tirar lentamente a roupa de alguém escolhido é realmente um privilégio.
Diretamente proporcional ao constrangimento de sermos obrigados a conviver e ver (que horror) tanta intimidade alheia e indesejável.