Celular de Vorcaro não cita pagamento a documentário sobre Lula

Extração do celular de Vorcaro não registra pagamento ao documentário sobre Lula, contradizendo áudio divulgado pela Veja
Nas conversas extraídas do celular de Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, não há nenhuma menção a pagamento ou patrocínio ao documentário sobre o presidente Lula (PT). O aparelho foi apreendido pela PF (Polícia Federal) em novembro de 2025, quando o ex-banqueiro foi preso pela primeira vez.
Os registros do celular de Vorcaro cobrem o período de julho de 2012 até 17 de novembro de 2025, dia de sua prisão. O documentário "Lula", dirigido por Oliver Stone, foi lançado em maio de 2024 e produzido entre 2022 e 2023, período inteiramente coberto pela extração do aparelho.
Em áudio publicado pela revista Veja nesta sexta-feira, Vorcaro afirma ter financiado um filme sobre o presidente. "O filme do Lula eu coloquei acho que até mais [que no filme sobre Jair Bolsonaro]. Só que o do Lula foi por fora, foi errado", diz o ex-banqueiro na gravação.
A revista afirma ainda que existe um documento levado à PGR (Procuradoria-Geral da República) em junho deste ano no qual Vorcaro menciona cerca de R$ 30 milhões em espécie destinados ao documentário e pagamentos ao Instituto Lula. Esse documento, no entanto, não foi incorporado a nenhuma das três propostas de delação premiada formalizadas pela defesa de Vorcaro, todas obtidas pelo UOL.
Como prova de seu relato, ainda segundo a Veja, Vorcaro teria oferecido "mensagens de WhatsApp" e registros de quem retirou o dinheiro. Fontes na PGR e na PF ouvidas pelo UOL negam que esse documento exista, dizem desconhecer a gravação e atribuem a divulgação a uma tentativa da defesa de Vorcaro de influenciar na eleição.
Em nota, a PGR disse que não houve depoimento oral de Vorcaro, "justamente por conta da rejeição da proposta, cujos motivos foram expostos à defesa".
A PGR "esclarece que as tratativas de colaboração premiada envolvendo o senhor Daniel Vorcaro foram sempre mediadas por advogados contratados pelo investigado, como devido". Acrescentou ainda: "Todas as propostas formalizadas pela Defesa foram recebidas na forma como livremente elaboradas por ela, sem juízo nem recusas prévias. Não houve interlocução direta do senhor Vorcaro com qualquer representante da PGR."
A extração do celular de Vorcaro mostra conversas sobre investimentos nos filmes de Jair Bolsonaro e Michel Temer, mas nada sobre Lula. Sobre o "Dark Horse", cinebiografia de Bolsonaro, mensagens trocadas com o cunhado Fabiano Zettel discutem remessas em dólar.
Em janeiro de 2025, Zettel escreveu: "Esse é o mais importante disparado. Não pode falhar mais". Em novembro de 2023, ele perguntou: "Que empresa vai fazer o filme do Temer??". Vorcaro indicou uma empresa e acrescentou: "Mas não queremos logo. Nada. Só participar".
A única menção ao documentário sobre Lula, dirigido por Oliver Stone, parte do advogado Walfrido Warde. Na véspera do segundo turno de 2022, ele enviou a Vorcaro fotos da gravação de uma entrevista e escreveu: "Falei tudo. Em ingres [sic]. Filme do Oliver Stone". O banqueiro respondeu "Toppp".
Quando o suposto patrocínio ao documentário sobre Lula veio a público, em maio, a partir de uma nota do colunista Lauro Jardim no jornal O Globo, os produtores do filme emitiram uma nota afirmando que "não houve quaisquer recebimentos de recursos, investimentos, patrocínios ou contribuições de qualquer natureza originados a partir de negociações com Daniel Vorcaro, com o Banco Master ou de qualquer empresa ou fundo a eles associados".
A primeira proposta de delação de Vorcaro, entregue à PF e à PGR no início de maio, não menciona o filme sobre Lula nem o "Dark Horse". Na proposta seguinte, de junho, Vorcaro incluiu um anexo sobre o "Dark Horse" no qual afirma que já havia "patrocinado anteriormente, da mesma forma, sem publicizar, filmes sobre os Presidentes Michel Temer e Lula".
No anexo escrito, o filme sobre Lula aparece como patrocínio, nos mesmos termos do "Dark Horse". No áudio publicado pela Veja, porém, Vorcaro faz a distinção oposta: "O do Flávio não foi [por fora], porque foi patrocínio, foi patrocínio normal".
Os valores também divergem. No áudio, Vorcaro diz ter colocado no filme de Lula "até mais" do que no de Bolsonaro, que teria recebido mais de R$ 60 milhões, segundo a revista. No documento citado pela Veja, o valor seria de cerca de R$ 30 milhões.
A PGR rejeitou a segunda proposta de delação em junho, após a PF concluir que ela não trazia novidades em relação ao material apreendido. Segundo a Veja, a Procuradoria não levou adiante o relato sobre o filme por falta de provas.
Fundos de pensão e intermediários
A outra parte do relato de Vorcaro divulgada pela Veja trata de fundos de pensão de estatais federais. Segundo a revista, o banqueiro afirma que petistas cobraram propina de 10% sobre o que o Master captasse na Previ, na Petros, no Postalis e na Caixa, investimentos que nunca se concretizaram e sem indícios de envolvimento de autoridades.
A proposta de delação e as mensagens obtidas pelo UOL confirmam a tentativa de acessar esses fundos por meio de dois intermediários. O ex-tesoureiro do PT João Vaccari Neto, levado pelo então sócio Augusto Lima, cuidaria de Banco do Brasil e Caixa, segundo Vorcaro tentou delatar.
Petros e Postalis ficariam com Júlio Cezar, dono de uma consultoria que se apresentava como interlocutor de Alexandre Padilha, atual ministro da Saúde, que chefiava à época a Secretaria de Relações Institucionais da Presidência.
O único encontro de Vorcaro com Padilha registrado no celular foi um jantar na casa do banqueiro em Brasília, fora da agenda oficial, na noite de 23 de outubro de 2024. "Daniel, acertado!!!! Padilha e Olavo amanhã às 22 horas, um jantar contigo em bsb", escreveu Júlio na véspera.
No dia, ele listou cinco convidados: Padilha, o então secretário-executivo da pasta Olavo Noleto, um primo de Olavo, um assessor do ministro e ele próprio. Às 21h26, Júlio avisou: "O Padilha já está a caminho". Nove minutos depois: "Estão no portão".
No dia seguinte, Júlio pediu a Vorcaro que ligasse para Olavo: "O PR vai te receber". Menos de dois meses depois, em 4 de dezembro, Lula recebeu Vorcaro no Palácio do Planalto, também fora da agenda.
Nas semanas seguintes, Júlio marcou reuniões de Vorcaro com os presidentes da Petros e do Postalis. Em abril de 2024, pediu R$ 500 mil ao banqueiro. "Quero ir pro jantar tranquilo", escreveu.
Vorcaro pagou e explicou como contabilizaria o dinheiro: "Já foi feito. Tem crédito na casa. Depois abatemos dos negócios". E acrescentou: "Quero ver agora você virar uma boleta de verdade", jargão do mercado para uma aplicação fechada.
No mesmo período, o Master entrou na lista exaustiva, cadastro do Ministério da Previdência das instituições autorizadas a receber aplicações dos regimes de previdência de servidores de estados e municípios. A entrada na lista foi negociada desde o início de 2024.
Em janeiro, um diretor do Master escreveu a Vorcaro: "O cara de Brasília consegue em sete dias a nossa entrada na lista exaustiva. 1,0 mm".
Em maio de 2024, Júlio voltou a Goiânia com "Fernando", nome do primo de Olavo citado na delação. Um mês depois, a AparecidaPrev, fundo dos servidores de Aparecida de Goiânia, aplicou R$ 40 milhões em títulos do Master.
A aplicação é investigada pela PF, e o conselho do fundo não a aprovou. Na delação, Vorcaro afirma que a propina sobre esse aporte foi paga por meio de nota fiscal da empresa de Júlio.
Previ, Petros, Postalis e Caixa Asset não chegaram a aplicar no Master. Em 2025, Júlio tentou levar ao banco os fundos de servidores do Espírito Santo, de Rondônia e do Amazonas.
Em fevereiro de 2025, Vorcaro reclamou a um diretor do banco: "Perdi tempo demais da minha vida com essa turma. Fazem cadastro, fala que aprovou crédito, mas grana nunca vem."
Em agosto, deu um ultimato a Júlio: "Se não entrar nada até final da semana que vem, eu gostaria que você encerrasse o trabalho".
O BC (Banco Central) decretou a liquidação do Master em novembro de 2025.
À Veja, Lula disse que "jamais solicitou ou recebeu qualquer vantagem financeira nem autorizou terceiros a receber recursos de Vorcaro em seu nome". Padilha negou relação com Vorcaro, e Olavo Noleto disse não ter recebido recursos do banqueiro.
À Folha, a assessoria de Padilha afirmou que "não houve qualquer desdobramento" do jantar e que, na data das mensagens, "não havia nenhuma acusação envolvendo a instituição financeira".