Lula reeleito em meio à onda de direita na América do Sul

Foto: Ricardo Stuckert/PR
Com a vitória de Lula, apenas quatro países sul-americanos mantêm lideranças de esquerda, enquanto oito são governados pela direita
A reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) impediu que a onda conservadora sul-americana chegasse também ao Brasil. Atualmente, oito dos 12 países que compõem o subcontinente são governados por líderes de direita, em um cenário de crescente influência dos Estados Unidos na região. Com a vitória de Lula, quatro países sul-americanos mantêm lideranças de esquerda: Guiana, com Irfaan Ali; Suriname, com Jennifer Simons; Uruguai, com Yamandú Orsi; e a Venezuela, atualmente comandada de forma interina por Delcy Rodríguez. Do outro lado, Argentina, Bolívia, Chile, Colômbia, Equador, Paraguai e Peru são governados por líderes de direita, representando juntos cerca de 58,3% da população sul-americana. Lula disputou o Palácio do Planalto contra o senador Flávio Bolsonaro (PL).
Ao longo da campanha, Flávio se aproximou de lideranças conservadoras da região, sobretudo o argentino Javier Milei e o equatoriano Daniel Noboa. O então candidato também vinha construindo uma relação de proximidade com os Estados Unidos, atualmente sob o comando de Donald Trump, que tem impulsionado lideranças de direita ao redor do mundo — e fez acenos explícitos a Flávio Bolsonaro no Brasil. Em uma configuração regional dominada pela direita, Lula renova seu mandato em um contexto desafiador, situação oposta à que encontrou quando retornou ao Palácio do Planalto em 2022, quando a maioria dos países da região era liderada por presidentes de esquerda. Para fontes diplomáticas consultadas pela reportagem, a relação do Brasil com os países vizinhos não deve sofrer mudanças significativas, com o pragmatismo econômico prevalecendo sobre as diferenças ideológicas.
Ainda no domingo (25/10), horas após o resultado das eleições, líderes da região ligaram para parabenizar Lula. Entre eles, o paraguaio Santiago Peña e o chileno José António Kast. Para membros da diplomacia brasileira, esse episódio ilustra a relação amistosa que o atual mandatário mantém com todos os líderes da região, independentemente do espectro político. Vale lembrar que, apesar de comporem campos políticos antagônicos, Lula e José Antonio Kast já se reuniram após a vitória do líder chileno, assim como Lula e Javier Milei se encontraram em reunião do Mercosul. Por outro lado, a ascensão da direita sob influência de Donald Trump pode impor dificuldades para Lula. A equipe de política externa do governo já antecipa que as relações com os países da região podem assumir um enfoque mais bilateral nos próximos anos, em meio ao "desmonte" de organismos multilaterais.
O novo governo Lula deverá lidar com a pressão de Donald Trump sobre a América do Sul, especialmente no que diz respeito ao combate ao narcotráfico. Washington ampliou, nos últimos meses, a cooperação militar com governos alinhados à sua agenda de segurança e passou a defender uma participação mais direta das Forças Armadas no enfrentamento a organizações criminosas. Um dos principais instrumentos dessa estratégia é a Coalizão das Américas contra os Cartéis (A3C), também chamada de Escudo das Américas. Liderada pelos Estados Unidos, a iniciativa começou com 12 países e chegou a 19 integrantes após a adesão da Colômbia. Entre os participantes estão Equador, Argentina, Bolívia, Chile, El Salvador, Peru e Honduras. O avanço da estratégia da nova Era Trump ocorre em paralelo à chegada de governos de direita ao poder em diferentes países da América Latina. O Brasil está fora do Escudo das Américas e mantém uma posição cautelosa em relação à ampliação da presença militar norte-americana na América do Sul. Membros do governo petista já afirmaram não ter interesse em aderir à iniciativa, preferindo estimular acordos e tratativas bilaterais de combate ao crime transnacional. Nesse contexto, a avaliação é de que a relação com a Casa Branca será "o tema mais sensível" deste quarto mandato de Lula. Embora os dois líderes mantenham uma relação razoável, membros do governo avaliam que a política do Departamento de Estado de Marco Rubio é hostil com o petista.



