Campanha de Lula reconhece contexto internacional favorável a Flávio

Bruno Peres/Agência Brasil
Campanha de Lula reconhece contexto internacional favorável a Flávio Bolsonaro enquanto direita global acumula vitórias
Integrantes da campanha do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) analisam os resultados do primeiro turno das eleições municipais com um olhar que vai muito além das fronteiras brasileiras. A liderança de Flávio Bolsonaro (PL) é interpretada por parte da equipe petista como reflexo de um cenário global no qual partidos e candidatos de direita e extrema direita acumulam vitórias expressivas. A frase que ecoa internamente na campanha do presidente resume bem o clima: "Quando o vento da história sopra contra você, não se pode errar." O momento é de tensão e debate sobre uma reestruturação interna considerada fundamental para enfrentar o segundo turno.
Ao analisar o fenômeno internacional, a campanha de Lula observa exemplos na América Latina e em países europeus como Alemanha e Reino Unido. Na região, a chamada "onda azul" de presidentes eleitos nos últimos anos inclui o argentino Javier Milei, em 2023; o colombiano Abelardo de la Espriella, que derrotou o esquerdista Iván Cepeda nas presidenciais de junho passado; e a peruana Keiko Fujimori, também eleita este ano, entre outros. De la Espriella e Fujimori venceram por margem estreita de votos. Milei, por sua vez, hoje um líder latino-americano de projeção internacional, derrotou o peronismo por mais de dez pontos percentuais de diferença. Apesar da crise social que assola a Argentina, as chances de reeleição do argentino em 2027 não são consideradas baixas.
Dentro da campanha do presidente Lula, circula a ideia de que a democracia ocidental, como era conhecida nas últimas décadas, atravessa uma crise histórica e que o Brasil não pode ser isolado desse contexto. Um dos que sustentam essa visão é Otávio Antunes, marqueteiro do PT que atuou na campanha presidencial de 2018 e é homem de confiança de Fernando Haddad. Antunes é reconhecido internamente por iniciativas como a "taxação BBB" (bancos, bets e bilionários) e por sua experiência em campanhas fora do Brasil. Na Argentina, o marqueteiro trabalhou na campanha do peronista Sergio Massa, que derrotou Milei no primeiro turno de 2023, mas não conseguiu impedir a eleição do candidato do partido direitista A Liberdade Avança (LLA) no segundo turno. No Uruguai, a equipe de Antunes obteve a vitória do presidente Yamandú Orsi no final de 2024, com 49,8% dos votos.
Na campanha de Flávio Bolsonaro, prevalece a mesma leitura de que as eleições brasileiras fazem parte de um contexto internacional e regional amplamente favorável ao candidato do PL. Em artigo publicado no jornal "Gazeta do Povo", Marcos Degaut, ex-secretário especial adjunto de Assuntos Estratégicos da Presidência da República no governo de Jair Bolsonaro e ex-secretário de Produtos de Defesa do Ministério da Defesa, afirma que "há uma recomposição política em curso na América do Sul, alimentada pelo esgotamento de modelos que prometeram proteção e entregaram estagnação, prometeram igualdade e multiplicaram privilégios, prometeram soberania e produziram dependência. O que acontece no Brasil integra uma transformação regional mais ampla".
Degaut, muito próximo do deputado cassado Eduardo Bolsonaro (PL), fala na morte da Nova República, em refundação do Brasil e na oportunidade que o país terá se Flávio Bolsonaro for eleito. Como exemplos bem-sucedidos, o ex-secretário menciona Polônia, Chile e Japão: "Maiorias não fazem história, projetos fazem. A Polônia de 1989 tinha a mesma janela e a usou para liberalizar preços e ancorar-se no Ocidente. O Chile dos anos 1980 a usou para reconstruir a previdência e abrir a economia. O Japão Meiji a usou para importar instituições sem importar subordinação".
As ideias das duas campanhas são diametralmente opostas, mas, em ambos os lados da arena política, existe a certeza de que o contexto histórico internacional é mais favorável a Flávio Bolsonaro. Lideranças de direita internacional, como o austríaco Gunther Fehlinger-Jahn, economista, consultor empresarial e ativista político, já manifestaram intenção de se aliar ao candidato do PL caso ele seja eleito. Fehlinger-Jahn atua como presidente do Comitê Austríaco para a Ampliação da Otan e defende a expansão da União Europeia. Ele é conhecido por publicar mapas fictícios nas redes sociais propondo a "balcanização" de nações como Rússia, China e Índia. "Quero uma nova parceria estratégica entre o Brasil e a Europa baseada em liberdade, comércio, investimento, segurança e o Ocidente", escreveu Fehlinger-Jahn em sua conta no X. O segundo turno é aguardado com atenção por observadores em diversas regiões do mundo, que acompanham de perto o desfecho de uma disputa que, para ambos os lados, transcende as fronteiras brasileiras.