Claudia Matarazzo: "Você é do grupo dos fortes ou covardes?''

Claudia Matarazzo: "Você é do grupo dos fortes ou covardes?''
Dizer “não” exige coragem e responsabilidade, enquanto desaparecer pode parecer mais fácil, mas revela a dificuldade de lidar com conflitos e respeitar o outro
Encarar o final de qualquer relacionamento nunca foi fácil. Tomar a iniciativa de romper, assumir que não queremos mais ver a outra pessoa e nem mesmo tentar “consertar” o que não funciona é coisa para os fortes. Costumo dizer que é nesse momento que se revela uma das formas mais comuns de covardia.
Na era analógica, quando a comunicação era feita por cartas ou pela presença real, as possibilidades de ruptura eram apenas essas duas. A carta, evidentemente, era considerada de péssimo gosto e somente usada como última alternativa.
Em geral, marcava-se um encontro e as boas maneiras orientavam que, caso não morassem juntos, o mesmo acontecesse na residência da pessoa que seria “abandonada”.
Feito isso, seguiam-se explicações, justificativas, lágrimas e cobranças, não necessariamente nessa ordem. As pessoas mais sensíveis ou com mais traquejo, muitas vezes, conseguiam sair desse tipo de situação razoavelmente bem ou, pelo menos, preservando um certo respeito e amor próprio do casal. Mas não era fácil. Romper por telefone era canalhice, só superada pelo desaparecimento puro e simples.
Quando surgiu o e-mail, por algum motivo, as pessoas acharam que não era grave terminar um relacionamento virtualmente. Talvez acreditassem ser prova de modernidade. Mas sempre foi apenas falta de educação básica mesmo. O ator Daniel Day-Lewis ocupou por meses as notícias por ter rompido por e-mail seu namoro com a linda colega Isabelle Adjani. E ficou muito feio para ele.
Hoje, com as conexões ultrarrápidas, o famoso ghosting deixou de ser apenas um termo dos aplicativos de relacionamento e passou a invadir também o universo profissional e social. Desaparecer parece mais simples do que encarar o desconforto de dizer: “não quero”, “não posso” ou “não vou”.
E por que essa prática se tornou tão comum? A resposta está na dificuldade de lidar com o conflito. Dizer “não” exige coragem, clareza e, sobretudo, responsabilidade emocional. Já desaparecer evita o embate imediato. Mas não se iluda: deixa marcas de insegurança e falta de respeito.
No trabalho, por exemplo, ignorar mensagens ou convites pode comprometer a credibilidade. Nas relações pessoais, o silêncio gera frustração e quebra de confiança. O que parece uma solução rápida acaba se transformando em um ruído duradouro.
A elegância está justamente em aprender a negar com delicadeza. Um “não” bem colocado, acompanhado de uma explicação sincera, preserva vínculos e transmite maturidade. Desaparecer pode ser fácil, mas nunca é elegante. Dizer “não quero” é difícil, sim, mas é também a forma mais clara de demonstrar respeito pelo outro e por si mesmo.
É o que diferencia qualquer pessoa que sabe se posicionar daquela que prefere se esconder. Simplificando, o que separa fortes de covardes. A boa notícia é que sempre é tempo de aderir aos fortes…