Claudia Matarazzo: ''Questão de prazer''

Claudia Matarazzo: ''Questão de prazer'' (Crédito da imagem: Magnific)
Entre planilhas emocionais e encontros com cara de entrevista, a espontaneidade perde espaço para o excesso de cautela, enquanto o prazer da conexão presencial fica em segundo plano
O que era para ser um primeiro encontro acabou de modo morno, com cara de entrevista de emprego. Quando foi que os jovens, e até mesmo os não tão jovens, desistiram da emoção de se apaixonar para incorporar o comportamento de contadores, apegados a planilhas e tabelas de previsões?
Pode reparar: hoje, alguns encontros amorosos muitas vezes parecem mais uma triagem corporativa do que um momento de descoberta. Aquela sensação de aventura que nos acometia momentos antes dos primeiros encontros foi substituída por estratégias para erguer barreiras atraentes que evitem uma aproximação excessiva ou mesmo golpes.
Sim, infelizmente, a profusão de golpes em todas as áreas acabou por alcançar também a afetiva, que, por definição, é frágil e suscetível a todo tipo de influência.
De modo que perguntas sobre planos futuros, hábitos de rotina, preferências e até mesmo tiradas de humor, antigamente comuns nessas ocasiões, ficaram em segundo plano ou, quando acontecem, acabam revestidas de uma estranha conotação bem-comportada, que transforma o clima, antes leve, em uma espécie de entrevista.
Esse excesso revela uma ansiedade típica das últimas décadas: queremos garantias antes mesmo de conhecer a essência do outro. Esperamos viver a vida de acordo com um roteiro imaginário que não funciona, claro. E menos ainda nos primeiros encontros.
Sem checklist, relacionamentos não se constroem com garantias prévias. O que deveria ser um espaço para troca e espontaneidade acabou virando uma avaliação de currículo.
Claro que é natural querer saber sobre valores e objetivos. Mas a forma como perguntamos faz toda a diferença. Em vez de interrogar, é mais elegante compartilhar experiências e deixar o diálogo fluir. Deixar que as afinidades apareçam de maneira genuína, sem pressão. E que tal deixar um bom espaço para o acaso, para a emoção do inesperado, para as surpresas mesmo?
Um primeiro encontro pode não ser essencialmente romântico, mas a conexão é muito mais importante do que a performance. O silêncio confortável, o riso inesperado e até as pequenas imperfeições dizem muito mais do que respostas ensaiadas.
Transformar esse primeiro momento a sós em coleta de dados pode até trazer informações, mas dificilmente cria vínculo. Porque relacionamentos, ao contrário das vagas de emprego, não se conquistam com currículo impecável, e sim com presença, autenticidade e, principalmente, emoção, além de gratas surpresas.
E, por falar em surpresas, que tal, para variar, praticar o presencial, pelo menos no que se refere aos encontros e ao prazer? Sim, refiro-me ao exercício do olho no olho, a resgatar a percepção ao vivo e a convivência presencial. Acredite: sexo analógico é muito mais gostoso, voyeurismo ao vivo é muito mais interessante e resenha presencial é muito mais gratificante.
Ok, argumentar ou insistir não vai convencer ninguém sobre um assunto tão pessoal e íntimo, mas vale o lembrete.



