
Detergentes da Ypê - Foto: Divulgação
A Ypê conseguiu a suspensão dos efeitos da proibição de venda de seus produtos determinada pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), após apresentar recurso à agência na última sexta-feira (8). Apesar da suspensão, a Anvisa mantém a recomendação para que os consumidores evitem utilizar os itens, alegando risco sanitário persistente na fábrica da empresa localizada em Amparo (SP). Em comunicado divulgado na noite de sexta-feira, a Ypê informou ter apresentado recurso à Anvisa com esclarecimentos e subsídios técnicos relacionados à determinação de recolhimento e proibição dos produtos.
"Com este recurso, a proibição de fabricar e comercializar produtos das categorias lava-louças, lava-louças concentrado, lava-roupas líquido e desinfetantes teve seus efeitos automaticamente suspensos até novo pronunciamento da agência, tal como dispõe o art. 17 da RDC nº 266/2019", declarou a marca. A Ypê acrescentou que "continuará em diálogo constante e permanente com a Anvisa e demais autoridades, sempre baseada em critérios científicos e subsídios técnicos, como forma de encontrar uma solução definitiva para a situação, no menor tempo possível".
Pouco depois do anúncio da Ypê, a Anvisa também emitiu uma nova nota sobre o caso. A agência confirmou que a empresa apresentou recurso contra a Resolução 1.834/2026 e que, com isso, as ações estão sob efeito suspensivo até o julgamento pela diretoria colegiada, previsto para ocorrer nos próximos dias. No entanto, a Anvisa reforçou que mantém a avaliação técnica do risco sanitário na linha de fabricação dos produtos da Ypê na unidade de Amparo (SP).
"Mesmo com o efeito suspensivo, a Anvisa recomenda que os consumidores não usem os produtos indicados, por segurança. É de responsabilidade da empresa orientar cidadãs e cidadãos, por meio do seu Serviço de Atendimento ao Consumidor (SAC), sobre procedimentos de recolhimento, troca, devolução, ressarcimento ou outras providências cabíveis", consta no comunicado da agência.
A crise teve início na quinta-feira (7), quando a Anvisa determinou o recolhimento de diversos produtos da Ypê após identificar descumprimentos em etapas críticas do processo produtivo, incluindo falhas nos sistemas de garantia, produção e controle de qualidade. A agência apontou que os problemas comprometem os requisitos essenciais de Boas Práticas de Fabricação (BPF), com potencial risco de contaminação microbiológica, ou seja, a presença indesejada de microrganismos potencialmente nocivos nos produtos. Nem a Anvisa, nem a Ypê, nem o Centro de Vigilância Sanitária do Estado de São Paulo informaram qual seria o microrganismo possivelmente presente nos itens afetados. A medida gerou dúvidas entre os consumidores.
A professora Cristiane Rodrigues Guzzo, do Departamento de Microbiologia do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo (USP), explicou que, especialmente no caso de produtos de limpeza, a contaminação microbiológica pode comprometer a eficiência do produto. "Além de perder a capacidade de limpeza, o produto pode acabar contaminando superfícies, utensílios e objetos que estão sendo lavados. Isso torna a situação preocupante", afirmou. O Procon-SP, por sua vez, informou que a marca deveria orientar os consumidores sobre como proceder para obter o reembolso dos valores pagos ou a troca por produtos em perfeitas condições de uso, conforme prevê o Código de Defesa do Consumidor.
Em novembro do ano passado, a Ypê já havia sido alvo de uma ação semelhante da Anvisa por contaminação microbiológica em alguns produtos. Na ocasião, o microrganismo identificado foi a bactéria Pseudomonas aeruginosa. Desta vez, porém, os órgãos responsáveis não divulgaram o agente causador. Segundo Cristiane Rodrigues Guzzo, a Pseudomonas aeruginosa é uma das poucas bactérias capazes de sobreviver e se proliferar em detergentes e produtos de limpeza. "Ela consegue resistir à ação química e formar biofilmes extremamente resistentes, o que dificulta a remoção e favorece a proliferação, inclusive em tubulações de água", explicou. O risco do contato com esse tipo de bactéria é maior para pessoas com lesões na pele ou com doenças que comprometem o sistema imunológico. "Essas pessoas são mais suscetíveis à contaminação, que pode evoluir para problemas pulmonares e infecções de ouvido, por exemplo", disse Cristiane. A Anvisa segue recomendando cautela aos consumidores enquanto aguarda o julgamento definitivo do recurso pela diretoria colegiada.