
Pseudomonas aeruginosa: bactéria em formato de bacilo causa infecções em diversos tecidos e é comum em hospitais
A disseminação em larga escala da bactéria Pseudomonas aeruginosa, encontrada em lotes de produtos da Ypê, representa um grave problema de saúde pública. É o que afirmam especialistas consultados pela reportagem e um estudo científico sobre o microrganismo. A bactéria apresenta taxa global de mortalidade que pode variar de 32% a 58% em casos graves, como infecções na corrente sanguínea ou pneumonia associada à ventilação mecânica.
Na quinta-feira (7), a Anvisa determinou o recolhimento de detergentes, sabões líquidos para roupas e desinfetantes da marca Ypê, de todos os lotes com numeração final 1. A agência cita risco sanitário e recomenda a suspensão imediata do uso de 23 produtos da marca, que devem ser descartados junto à própria empresa.
A Química Amparo, responsável pela produção, foi obrigada a interrompê-la.
Riscos para a saúde
Em ambiente doméstico, o contato com a Pseudomonas aeruginosa pode causar irritação na pele, alergias, coceiras e ardências nos olhos, segundo Daiane Ribeiro, biomédica que atuou por dez anos na Unilever. Ela aponta ainda riscos de problemas respiratórios e dermatite, uma inflamação na pele caracterizada por coceira, vermelhidão e descamação.
Em pessoas saudáveis, o contato com a bactéria não costuma provocar infecções graves. A Pseudomonas aeruginosa é classificada como uma bactéria oportunista: causa infecções quando encontra brechas nas defesas naturais do organismo ou quando o sistema imunológico está fragilizado.
Por isso, a preocupação maior recai sobre imunossuprimidos, como pessoas com HIV, câncer, transplantes ou internadas em UTI, além de idosos.
Resistência a antibióticos e perigo hospitalar
Um estudo da Universidade Politécnica de Hong Kong, publicado no ano passado na revista Microorganisms, classifica a Pseudomonas aeruginosa como uma das principais causas de infecções hospitalares.
Os pesquisadores destacam a capacidade da bactéria de formar biofilmes, colônias protegidas por uma matriz viscosa que funciona como escudo físico, permitindo sua sobrevivência mesmo em ambientes hostis, como frascos de produtos de limpeza.
A dificuldade de erradicação é agravada por mecanismos naturais da bactéria que a tornam até 100 vezes menos permeável a antibióticos do que microrganismos comuns.
O estudo também registra o aumento de cepas multirresistentes da Pseudomonas aeruginosa, deixando os médicos com pouquíssimas opções de tratamento eficazes.
A OMS identifica a resistência antimicrobiana como uma das dez principais ameaças à saúde pública mundial.
Em nota, a Ypê afirma que "possui fundamentação científica robusta, baseada em testes e laudos técnicos independentes, atestando que seus produtos das categorias lava-louças, lava-louças concentrado, lava-roupas líquido, e desinfetante são seguros e não representam qualquer risco ao consumidor".