
Benício Xavier de Freitas, de 6 anos, faleceu em hospital de Manaus. — Foto: Arquivo pessoal
A Polícia Civil do Amazonas concluiu que o menino Benício Xavier, de 6 anos, morreu em decorrência de erro médico após receber uma overdose de adrenalina aplicada diretamente na veia, quando o medicamento deveria ter sido administrado por inalação.
Com base nessa conclusão, os investigadores indiciaram a médica Juliana Brasil e uma técnica de enfermagem por homicídio doloso, responsabilizando ambas pelo atendimento prestado à criança.
A defesa de Juliana Brasil, representada pelo advogado Sergio Figueiredo, reagiu ao indiciamento por meio de nota, afirmando avaliar com "profunda preocupação o indiciamento da médica Juliana Brasil".
Segundo o advogado, a conclusão "revela-se precipitada e dissociada da realidade causal que culminou no lamentável óbito do menor Benício".
A defesa da técnica de enfermagem ainda não foi localizada.
O Hospital Santa Júlia também não se pronunciou sobre as conclusões da Polícia Civil.
Benício deu entrada no Hospital Santa Júlia, em Manaus, na madrugada do dia 23 de novembro do ano passado, com quadro de tosse seca e suspeita de laringite.
Segundo relato da técnica de enfermagem Raíza Bentes, a médica que atendeu a criança prescreveu três doses de adrenalina de 3 ml cada, a serem aplicadas em intervalos de 20 minutos por via endovenosa, ou seja, diretamente na corrente sanguínea.
Raíza afirmou ter estranhado a forma de aplicação, normalmente realizada por via respiratória, mas seguiu a prescrição escrita da médica.
Após a primeira dose, o menino começou a passar mal, apresentando palidez e dificuldade para respirar.
A técnica informou a médica sobre o estado da criança, que teria dito à mãe que seria feita inalação.
Benício sofreu seis paradas cardíacas e não resistiu.
A polícia apontou ainda a responsabilidade de dois diretores do Hospital Santa Júlia pela morte da criança.
O delegado Marcelo Martins, do 24.º Distrito Integrado de Polícia (DIP), disse ao Estadão ter recebido capturas de tela de conversas entre a médica e colegas do hospital nas quais ela admitia ter errado na prescrição.
Em uma das mensagens, Juliana Brasil escreveu: "E acabaram fazendo EV (endovenosa). Paciente tá passando mal. Ficou todo amarelo. Pede para alguém da UTI descer urgente. Urgente Dr. Pelo amor de Deus."
Em outra conversa, ela afirmou: "Paciente desmaiou. Pelo amor de Deus. Eu errei a prescrição", repetindo em seguida: "Já fiz isso. Me ajuda. Eu que errei na prescrição".
A defesa de Juliana Brasil sustenta que "não há nexo causal direto entre a conduta atribuída à médica no atendimento inicial e o resultado morte ocorrido 14 horas depois, já em ambiente hospitalar diverso, dentro de uma Unidade de Terapia Intensiva (UTI)".
A nota apresenta uma cronologia do atendimento e argumenta que intervenções médicas posteriores foram determinantes para o agravamento do quadro da criança, citando, entre outros fatores, uma tentativa frustrada de intubação que teria durado cerca de 1 hora e 20 minutos, além de uma broncoaspiração decorrente de autorização de dieta durante o período crítico.
A defesa aponta ainda uma suposta falha sistêmica no prontuário eletrônico, que teria alterado a forma de administração do medicamento, e critica a conduta da técnica de enfermagem Raíza, afirmando que ela "optou por não buscar esclarecimento junto à médica responsável, assumindo o risco de execução inadequada do procedimento".
Para a defesa, "o inquérito padece de grave deficiência investigativa, ao não aprofundar a análise sobre os reais fatores determinantes do óbito, deixando de responsabilizar, ao menos em tese, aqueles que efetivamente contribuíram de forma direta para o agravamento irreversível do quadro clínico".
O caso segue em acompanhamento.
A defesa de Juliana Brasil afirma que "a verdade real dos fatos ainda não foi plenamente apurada" e que continuará "firme na busca pela verdade, confiando que a justiça saberá corrigir eventuais distorções".