
Foto: Reprodução
O publicitário Eduardo Fischer assumirá o comando da pré-campanha do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) à Presidência da República, substituindo o marqueteiro Marcello Lopes, conhecido como "Marcellão". A troca foi confirmada na noite de quarta-feira, em meio à crise gerada pela revelação da relação do filho do ex-presidente Jair Bolsonaro com o banqueiro Daniel Vorcaro, acusado de fraudes bilionárias. Eduardo Fischer é considerado um dos maiores nomes da propaganda no Brasil.
Ele integra o "Hall da Fama" da Academia Brasileira de Marketing e é responsável por alguns dos "maiores cases de marketing" das últimas décadas no país. Entre as campanhas mais conhecidas está "A número 1", criada para a cervejaria Brahma e que se tornou um dos grandes slogans da empresa após a Copa do Mundo de 1994. Ao longo da carreira, Eduardo Fischer foi eleito por cinco vezes o "Publicitário do Ano" no Brasil.
Em 1996, foi escolhido Publicitário Latino-Americano pela Associação Latino-Americana de Agências de Publicidade (ALAP). Ele acumula mais de 700 prêmios dentro e fora do país e, em 2010, entrou para o "Hall of Fame" do Festival Iberoamericano de la Publicidad (FIAP), o mais importante reconhecimento da região. Eduardo Fischer também participou de comissões e eventos internacionais relevantes, como o "Rio +20 The Future We Want", da Organização das Nações Unidas (ONU). Atualmente, preside o Grupo Fischer, voltado para comunicação, propaganda, entretenimento, marketing e promoção de eventos.
O empresário teve ainda sociedade com o apresentador e empresário Roberto Justus no mercado publicitário, parceria que ajudou a consolidar seu nome entre os principais executivos da comunicação brasileira nos anos 1990 e 2000. Apesar do vasto histórico no ramo comercial, a experiência política de Eduardo Fischer é limitada. Sua única participação em campanha eleitoral foi ao lado do ex-deputado federal Álvaro Dias, em 2018, quando ele concorreu à Presidência pelo partido Podemos. Na disputa, o candidato obteve apenas 0,8% dos votos.
A saída de Marcellão foi anunciada oficialmente na noite de quarta-feira, embora a intenção de trocar a equipe de comunicação já circulasse nos bastidores há algum tempo. Uma ala do grupo responsável por conduzir a pré-campanha de Flávio ao Palácio do Planalto demonstrava insatisfação com a atuação do marqueteiro, insatisfação que se agravou com o que descreveram como falta de habilidade na condução da maior crise enfrentada pelo presidenciável até o momento. "O publicitário, que é amigo pessoal do parlamentar, decidiu, neste momento, focar na própria empresa e priorizar os seus negócios. Lopes volta para os Estados Unidos para cumprir agenda familiar", afirmou Marcellão no comunicado.
Nos bastidores, integrantes da pré-campanha afirmam que o senador acabou sendo levado "a reboque" do noticiário, demorando para responder a temas que, na avaliação de aliados, deveriam ter sido tratados antes mesmo de ele aceitar entrar oficialmente na corrida presidencial. A avaliação de parte da coordenação é que faltou uma estratégia mais agressiva de comunicação para conter a crise logo nas primeiras horas após a divulgação dos áudios e documentos pelo Intercept Brasil. A leitura interna é que Flávio demorou a se posicionar publicamente e acabou transmitindo insegurança política ao mudar versões sobre o alcance de sua relação com Vorcaro.
O desgaste teve início com a revelação de áudios pelo Intercept Brasil, nos quais Flávio cobra de Vorcaro o dinheiro que teria sido combinado para patrocinar um filme sobre Jair Bolsonaro. A conversa ocorreu em setembro de 2025: — Tá num momento muito decisivo aqui do filme e como tem muita parcela pra trás, cara, tá todo mundo tenso e eu fico preocupado com o efeito contrário ao que a gente sonhou pro filme — disse o senador, em áudio enviado ao banqueiro.
Outro contato foi feito dois meses depois, um dia antes de Vorcaro ser preso pela primeira vez na Operação Compliance Zero, que investiga um suposto esquema de fraudes bilionárias, corrupção passiva e ativa, lavagem de dinheiro e crimes contra o sistema financeiro. "Irmão, estou e estarei contigo sempre, não tem meia conversa entre a gente. Só preciso que me dê uma luz! Abs!", escreveu Flávio.
Parlamentares e empresas ligadas ao projeto passaram a apresentar explicações divergentes sobre a origem dos recursos, os contratos firmados e a estrutura usada para operacionalizar os pagamentos. A sequência de declarações levou a Polícia Federal (PF) a aprofundar as apurações sobre o destino do dinheiro. A principal linha de investigação tenta esclarecer se os valores enviados ao fundo Havengate Development Fund LP, sediado no Texas e gerido por advogado de Eduardo Bolsonaro, foram usados exclusivamente na produção do filme ou se também ajudaram a custear a permanência do ex-deputado nos Estados Unidos.
Vorcaro foi preso preventivamente em 17 de novembro, no Aeroporto de Guarulhos, quando embarcava para Dubai em um jatinho particular. Em 29 de novembro, foi autorizado a cumprir regime domiciliar após decisão do Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF-1), passando a usar tornozeleira eletrônica e sendo proibido de contato com outros investigados. Em 4 de março, porém, o banqueiro foi novamente preso por ordem do ministro André Mendonça, do STF, após investigações apontarem tentativa de obstrução de Justiça por parte de um grupo ligado a Vorcaro.
A visita de Flávio a Vorcaro, em São Paulo, ocorreu antes da segunda prisão: — Fui sim até o encontro dele. Ele estava restrito e não podia sair do estado de São Paulo, então fui até ele — disse Flávio. — Eu fui sim ao encontro dele para botar um ponto final nessa história. Dizer que, se ele tivesse me avisado que a situação era grave como essa, eu já teria ido atrás de outro investidor há muito mais tempo e o filme não correria risco. Com a entrada de Eduardo Fischer, aliados de Flávio Bolsonaro apostam em uma comunicação mais experiente e assertiva para enfrentar os desdobramentos da crise e reposicionar o senador na corrida presidencial.