
Foto: Banco Central/Reprodução
A ata do Comitê de Política Monetária do Banco Central, divulgada nesta manhã, deixa claro que a velocidade, a magnitude e a duração do ciclo de corte de juros foram substancialmente reduzidas. No curto prazo, o mercado não enxerga a Selic abaixo de dois dígitos, e as projeções para o final deste ano apontam para uma taxa mais próxima de 14% do que de 13% — considerando que a Selic está atualmente em 14,5%.
Segundo Marcelo Bispo, economista da Onfiled Investimentos, o Copom enfatiza três pontos principais que dificultam a redução dos juros. "Primeiro, as expectativas de inflação ainda estão desancoradas por mais tempo. Segundo, o cenário fiscal segue gerando incerteza. E, terceiro, o ambiente externo, com juros altos lá fora e riscos como conflitos, também pressiona. No fim, isso faz o BC ir com mais calma, mesmo com alguns dados melhores no curto prazo", resume o economista. Marianna Costa, economista-chefe da Mirae Asset, aponta o que chama de combo pernicioso entre inflação e política fiscal.
"A combinação de uma inflação corrente que voltou a acelerar com um cenário externo hostil e um fiscal gradativamente pior impede uma taxa Selic, no curto e médio prazo, a retornar para patamares de um dígito", afirma. As projeções mais otimistas indicam que, até 2028, a Selic poderia chegar a 10% ao ano — desde que o cenário econômico colabore. A política monetária apertada vai na contramão do que o governo projetava para o ano eleitoral.
A inflação de alimentos e combustíveis representa uma ameaça real aos planos de reeleição do presidente Lula. Nesse contexto, o programa Desenrola 2.0 surge como uma resposta paliativa a uma emergência concreta: o endividamento das famílias brasileiras em patamar recorde. Na avaliação de Luis Ferreira, CIO do EFG Bank, o programa é uma faca de dois gumes. "O crédito subsidiado diminui a potência da política monetária. Diminui o impacto de restrição na economia. O governo vai precisar calibrar: se tiver que tomar decisão de crédito subsidiado, o custo lá na frente pode ser maior", alerta o especialista.
Em outras palavras, a medida pode aliviar a pressão no curto prazo, mas tende a ampliar os problemas no médio e longo prazo. Em síntese, o programa de renegociação de dívidas não resolve a questão de forma estrutural. A ata do Copom reforça que os brasileiros deverão conviver com juros elevados por um período prolongado, sem perspectiva de alívio significativo no horizonte próximo.