
A família Vorcaro está sob investigação após o Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) identificar que a empresa Multipar movimentou mais de R$ 1 bilhão em cinco anos, exclusivamente entre contas ligadas a Daniel Vorcaro, dono do Banco Master. De acordo com o relatório de inteligência financeira, essa movimentação sugere uma possível tentativa de esconder patrimônio, com "troca de recursos entre empresas/pessoas do grupo, podendo representar uma tentativa de quebra do rastro do dinheiro".
O levantamento feito com base no documento do Coaf contém informações de 2020 a 2025, período em que Vorcaro estruturou o Master. A marca foi criada em 2021, após a aprovação do Banco Central para a compra do banco Máxima, em 2019. Durante este período, a Multipar movimentou R$ 1,07 bilhão, sendo que aproximadamente 93% desses recursos (cerca de R$ 1 bilhão) circularam entre empresas ou pessoas ligadas a Vorcaro ou seu banco.
A análise das transações revela um padrão preocupante de circulação de dinheiro dentro de um grupo restrito de empresas conectadas. A Hebron Participações, que atua no mesmo ramo da Multipar e também pertence a Henrique Vorcaro (pai de Daniel), foi a empresa que mais movimentou recursos com a Multipar. Ela transferiu R$ 419,2 milhões em mais de mil transações e recebeu de volta R$ 104,3 milhões em 352 operações.
A Alliance Participações, com o mesmo quadro societário da Multipar (Henrique e Natália Vorcaro), transferiu R$ 51,4 milhões para a Multipar e recebeu R$ 27,1 milhões em retorno. Esta empresa está no centro de uma suposta fraude de R$ 45 bilhões em ativos ambientais da família. O fundo GFS, administrado pela Reag, recebeu R$ 47 milhões da Multipar e repassou outros R$ 15 milhões para ela. A Reag é a mesma gestora que administrava fundos suspeitos de realizar transações fraudulentas para a rede de instituições ligadas ao Banco Master.
O próprio Banco Master recebeu R$ 5,8 milhões da Multipar. As movimentações envolvem cerca de 10 mil transações entre um grupo de pouco mais de 30 empresas relacionadas à família Vorcaro ou ao Master. O relatório de informações financeiras aponta que "foram identificadas movimentações relevantes entre partes relacionadas, incluindo empresa do mesmo grupo econômico, indicando possível uso da conta como canal de passagem".
O documento do Coaf também revela transferências milionárias da Multipar para contas pessoais de membros da família Vorcaro. Henrique Vorcaro recebeu R$ 14,7 milhões e repassou R$ 1,4 milhão de volta para sua própria empresa. Natália Vorcaro, irmã de Daniel e esposa de Fabiano Zettel, recebeu R$ 6,4 milhões e devolveu R$ 1,9 milhão. Aline Vorcaro, mãe de Daniel, foi a pessoa física que mais recebeu recursos da Multipar no período, com R$ 20,9 milhões.
Daniel Vorcaro está preso, investigado por suspeita de aplicar uma fraude bilionária no mercado financeiro por meio do Master. Seu cunhado, Fabiano Zettel, ex-pastor da Igreja Batista da Lagoinha, também está detido sob suspeita de integrar o esquema. As investigações mostraram que o grupo utilizou fundos de investimentos e empresas de fachada para transferir ativos entre si, inclusive papéis sem valor, inflando artificialmente o valor de suas empresas e da instituição financeira. A assessoria de imprensa de Vorcaro informou que não vai comentar o caso.
Já o advogado Eugênio Pacelli, representando Henrique Vorcaro, presidente da Multipar, afirmou que "todas as movimentações financeiras do grupo Multipar são devidamente contabilizadas, lícitas e transparentes". Ele também criticou a "divulgação seletiva de trechos de documentos sigilosos", dizendo que isso "distorce o contexto, compromete a lisura dos fatos, afronta diretamente princípios éticos e legais e representa uma verdadeira ameaça ao processo legal". Em relação ao caso dos ativos de carbono, o advogado de Henrique Vorcaro negou qualquer irregularidade, afirmando que o projeto foi desenvolvido por terceiros e que, "como investidor, [ele] adotará as medidas legais cabíveis para ressarcimento dos investimentos".
O esquema identificado pelo Coaf reflete o mesmo padrão de operações que levou às investigações contra o Banco Master, com circulação de recursos dentro de um grupo fechado de empresas e pessoas físicas ligadas à família Vorcaro, levantando suspeitas sobre a real natureza e finalidade dessas transações financeiras.