
Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil
O preço do petróleo atingiu o nível mais alto desde 2022 após a divulgação de um relatório indicando que militares dos Estados Unidos devem apresentar ao presidente Donald Trump novos planos para uma possível ação contra o Irã. O barril do tipo Brent subiu quase 7%, ultrapassando US$ 126 (cerca de R$ 630), o maior valor registrado desde a invasão da Ucrânia pela Rússia. O cenário geopolítico acende um alerta global sobre o abastecimento de energia e seus reflexos nos preços ao consumidor.
Segundo o site Axios, com base em fontes anônimas, o Comando Central dos EUA (Centcom) preparou um plano para uma série de ataques "breves e contundentes" contra o Irã, com o objetivo de destravar as negociações diplomáticas. A BBC entrou em contato com o Centcom e com a Casa Branca para comentar, mas não recebeu resposta até o momento.
A escalada no Golfo e o impacto nos mercados
Os preços de energia vêm subindo ao longo da semana, com as negociações de paz estagnadas e o estratégico estreito de Ormuz ainda, na prática, fechado. Antes dos ataques dos EUA e de Israel contra o Irã, cerca de 20% do petróleo global passava por esse estreito, além de outros insumos essenciais.
A reportagem do Axios indica que a proposta de ataques deve incluir alvos de infraestrutura. Outro plano envolve assumir o controle de parte do estreito de Ormuz para reabrir a rota ao transporte comercial, o que pode exigir o envio de tropas terrestres.
O petróleo West Texas Intermediate (WTI), referência de preço nos EUA, também registrou alta de 2,3%, chegando a cerca de US$ 109 (aproximadamente R$ 545) o barril. O contrato futuro do Brent para entrega em julho avançava cerca de 2%, para perto de US$ 113 (cerca de R$ 565), nas negociações da manhã na Ásia.
"Os mercados de petróleo reagiram rapidamente à possibilidade de uma nova ação militar no Golfo", afirmou Yeow Hwee Chua, professor de economia da Universidade Tecnológica de Nanyang, em Singapura. Ele acrescentou que mesmo uma pequena chance de escalada do conflito pode ter "efeitos desproporcionais" sobre a oferta global de energia.
Os preços do petróleo já haviam subido 6% na quarta-feira (29/4), após relatos de que os EUA se preparavam para um bloqueio "prolongado" ao Irã. O país reagiu aos ataques aéreos dos EUA e de Israel ameaçando atacar navios na região, por onde costuma passar cerca de um quinto da energia consumida no mundo.
"Há sinais de que uma escalada do conflito voltou ao centro das discussões, seja com os EUA mantendo o bloqueio ao Irã, seja com relatos e rumores de que, para sair desse impasse, o Irã pode voltar a atacar", disse Naveen Das, analista sênior de petróleo da Kpler, empresa de inteligência marítima.
Ele afirmou ao programa Today, da BBC, que um preço do petróleo próximo de US$ 125 (cerca de R$ 625) é o ponto em que empresas e políticos "começam a ficar mais apreensivos". "Podemos começar a ver mais iniciativas para tentar reduzir a escalada", acrescentou Das, porque a alta dos preços "tem efeito em cadeia não só sobre o petróleo, mas também sobre produtos derivados, a inflação e praticamente todos os aspectos da vida cotidiana".
A BBC apurou que executivos do setor de energia se reuniram com Trump na terça-feira (28/4) para discutir formas de limitar o impacto da guerra sobre os consumidores americanos, o que aumentou a preocupação do mercado com uma possível interrupção prolongada no fornecimento de energia.
"A grande questão, na minha visão, é por quanto tempo o governo Trump conseguirá suportar a pressão econômica", disse Will Walker-Arnott, gestor de investimentos da Raymond James, ao programa Today. "As pessoas já começam a se preocupar com o impacto inflacionário da alta do petróleo", acrescentou.
A vantagem do Brasil com os biocombustíveis
A guerra, iniciada em 28 de fevereiro, provocou uma crise energética global, com alta do petróleo e risco de desabastecimento, especialmente após o bloqueio do estreito de Ormuz. Nesse cenário, o Brasil conta com uma vantagem estratégica: os biocombustíveis, segundo avaliação da revista britânica The Economist.
Em artigo publicado em 26 de março, a revista afirmou que "o Brasil tem uma arma secreta contra choques do petróleo" e que "os biocombustíveis vão ajudar o país a enfrentar os efeitos do conflito no Oriente Médio".
A publicação destaca que, enquanto poucos países estavam preparados para um choque do petróleo, "o Brasil estava", por ter investido ao longo de décadas em alternativas e construído "a indústria de biocombustíveis mais sofisticada do mundo".
A reportagem ressalta o papel estrutural desses combustíveis na economia brasileira. "Eles são misturados à gasolina e ao diesel, com percentuais obrigatórios definidos pelo governo de 30% e 15%, respectivamente, entre os mais altos do mundo", observa a revista. Além disso, "três quartos dos veículos leves no Brasil possuem tecnologia que permite rodar com qualquer mistura, desde gasolina pura até etanol 100%".
Segundo a The Economist, isso "reduz a dependência do Brasil de combustíveis fósseis importados e protege o país contra mercados inflacionados. O preço da gasolina nos postos brasileiros subiu 10% desde o início da guerra, e o do diesel, 20%, segundo dados divulgados em 20 de março pelo regulador de energia. É um aumento doloroso, mas muito abaixo dos saltos de 30% a 40% observados nos Estados Unidos."
A revista lembra que essa estratégia teve início nos anos 1970, após outra crise do petróleo. "Na época, o Brasil importava 80% do combustível que consumia; o embargo árabe estava sufocando a economia. Transformar o excedente de cana-de-açúcar em etanol foi uma solução óbvia", aponta o texto.
A publicação menciona ainda um plano do governo federal, em 2023, para promover o biodiesel derivado de sementes, principalmente de soja, e destaca o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) como um dos que "poucos abraçaram os biocombustíveis com tanta intensidade".
Ainda assim, a The Economist faz uma ressalva: "os biocombustíveis não podem eliminar totalmente os custos provocados pela alta do petróleo". A avaliação, porém, é de que o Brasil entra nessa crise em posição mais favorável do que a maioria das grandes economias.
A análise aponta ainda que o modelo brasileiro começa a chamar atenção internacional, com países como Índia e Japão estudando adaptar a experiência do país.