
Foto: Ricardo Stuckert/PR
Lula recua de plano para compra de avião presidencial por temor de desgaste eleitoral O presidente Luiz Inácio Lula da Silva decidiu recuar dos planos de adquirir uma nova aeronave presidencial devido ao receio de desgaste eleitoral às vésperas da campanha de 2026. Apesar de já possuir orçamentos elaborados pelo Ministério da Defesa e pela Aeronáutica, o Palácio do Planalto optou por deixar o assunto de lado para evitar o impacto político negativo que a compra provocaria no ano em que o petista buscará seu quarto mandato. O recuo de Lula ocorre justamente no momento em que o presidente começa a direcionar seus esforços para a campanha presidencial.
Ao longo de 2024 e 2025, Lula manifestava publicamente o desejo de comprar um novo avião, especialmente após enfrentar ao menos três episódios de risco em voos oficiais durante o mandato. A decisão, no entanto, esbarrou no alto custo, estimado entre R$ 1,4 bilhão e R$ 2 bilhões, segundo cotações de mercado. Além do valor elevado do investimento, a escassez desse tipo de aeronave no mercado internacional representa um dos principais entraves para a aquisição. O processo de compra poderia levar meses para ser concluído devido às especificidades de fabricação, já que a produção de aeronaves de luxo adaptadas para líderes mundiais é limitada e não acompanha a demanda global.
Mesmo após os trâmites concluídos, ainda haveria o período necessário para a entrega, com integrantes do governo avaliando que todo o processo não seria finalizado em menos de um ano. O atual Airbus A319CJ, adquirido há 20 anos durante o primeiro mandato do presidente, sofreu uma pane no México após a falha de uma das turbinas em outubro de 2024. O problema obrigou a aeronave a permanecer quase cinco horas voando em círculos sobre a Cidade do México para consumir combustível e viabilizar um pouso seguro.
O episódio irritou o presidente, que avaliou ter corrido risco de morte. "Eu pensei na minha vida, porque eu fiquei 4 horas e meia dentro de um avião, sabe, esperando um milagre de Deus para que o avião não caísse", disse Lula em reunião ministerial de 2025. Outros incidentes também ocorreram com a aeronave presidencial. Em março de 2025, o Aerolula precisou arremeter ao tentar pousar no aeroporto de Sorocaba, no interior de São Paulo, devido a ventos fortes.
Em outubro do ano passado, no Pará, uma falha no motor antes da decolagem obrigou a comitiva a trocar de aeronave, modelo C-105 Amazonas operada pela Força Aérea Brasileira. O grupo seguia para Breves, na Ilha do Marajó, quando o problema foi identificado ainda em solo. Segundo Lula, todos desembarcaram diante do receio de incêndio. O Ministério da Defesa enfrenta dificuldades até mesmo para garantir recursos para agilizar a chegada de uma nova turbina para o Aerolula, que desde o incidente no México passou a operar com uma turbina alugada.
Havia previsão de entrega em janeiro, mas, como não houve pagamento, o governo brasileiro deve esperar pelo menos mais um mês até que a nova turbina chegue. A intenção de trocar o avião decorre da insatisfação de Lula e da primeira-dama, Janja, com as limitações da atual aeronave que tornam as viagens ao exterior cansativas. O presidente defende um avião com maior autonomia para voos internacionais, o que encurtaria o tempo de deslocamento e tornaria os roteiros mais seguros, com redução de pousos e decolagens. Em uma viagem ao Japão, em maio de 2023, Lula precisou fazer duas escalas, em Guadalajara, no México, e no Alasca, nos Estados Unidos. O fator político, no entanto, sempre foi levado em consideração na discussão.
O entorno do petista argumenta que o ônus da compra recairia sobre Lula por se tratar de um bem de uso exclusivo do presidente e de alto gasto, ainda que o avião fique a serviço dos próximos presidentes da República. Também pesou para a revisão do timing da compra a avaliação de que poderia gerar narrativas negativas junto à opinião pública, em meio a pressões fiscais do último ano do mandato. Diante da campanha eleitoral, um novo avião presidencial também ampliaria os gastos da campanha presidencial do PT.
Os custos das viagens para atos de campanha devem ser pagos pelo partido, e um avião mais moderno poderia aumentar o valor desses trajetos. Como presidente da República, mesmo durante o período eleitoral, Lula só poderá viajar em aviões da FAB e acompanhado de agentes do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), departamento responsável pela proteção do chefe do Executivo federal.
A decisão de adiar a compra da aeronave presidencial reflete a preocupação do governo com a percepção pública em ano eleitoral. Apesar dos problemas técnicos enfrentados com o atual Aerolula e da necessidade expressa pelo presidente de uma aeronave com maior autonomia, o custo político foi considerado alto demais neste momento, levando o governo a postergar a aquisição para depois das eleições de 2026.