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Gregorio Duvivier retorna a Belo Horizonte com "O Céu da Língua", espetáculo que reflete sua obsessão pelas palavras e já foi assistido por mais de 218 mil espectadores em 33 cidades brasileiras e 12 europeias. O ator, que acaba de completar 40 anos, apresenta sessões que já estão esgotadas na capital mineira. "Sou obcecado com as palavras desde que me entendo por gente", revela Duvivier.
Para ele, as palavras são a única forma possível de "transmutar um pensamento", algo que sempre o deixou "muito, muito fascinado". Essa paixão o conduziu aos livros desde cedo, depois ao curso de letras e, mais recentemente, à criação deste espetáculo teatral inteiramente dedicado à linguagem. O espetáculo abre a programação do Teatro em Movimento em celebração aos seus 25 anos, com apresentações de quarta a sábado, em dois horários: 19h e 21h30.
Apesar da intensidade da agenda, o ator não se sente cansado: "Como dizia minha avó, mineira, "quem corre por gosto não cansa"", brinca. Gregorio Duvivier sente que escreve esta peça desde sempre. "O texto tem material da minha vida toda, desde que comecei a estranhar as palavras", explica. O processo criativo foi desenvolvido em parceria com a atriz Luciana Paes, diretora do espetáculo e sua parceira na montagem "Portátil". "Escrever o texto foi me reunir com ela e escrever, falar e transcrever. Uma escrita que também foi fala. Eu e a Luciana íamos jorrando tudo através do verbo, e as coisinhas iam entrando no texto; depois, claro, eram cortadas quando não funcionavam", conta o ator, que recebeu o prêmio de Melhor Ator na última edição do Prêmio Bibi Ferreira por este trabalho.
O espetáculo não se concentra apenas na etimologia das palavras, mas investiga sua origem de forma mais ampla. "Tem perguntas que permeiam toda a peça: "como nasce uma palavra?"; "Qual teria sido a palavra inaugural, a primeira de todas?"; "De onde é que elas vêm?" Nós pegamos referências de outras línguas para criar uma palavra, mas em algum momento ela nasceu, e a peça investiga esse DNA", elabora Duvivier.
Na busca por responder a essas questões, o ator utiliza muita poesia e humor, elementos que ele considera intimamente relacionados: "Eu acho que são coisas muito parecidas, o humor e a poesia. Não digo toda a literatura, mas a poesia tem muitos pontos em comum com o humor. Um deles é o espanto. Os dois nascem do espanto, do estranhamento". Autor de três livros de poesia, Duvivier reflete que esse gênero literário é frequentemente motivo de chacota, principalmente porque "a poesia precisa de tempo e de silêncio", algo raro no mundo contemporâneo.
Ele também aponta que, em alguns casos, a poesia "se leva a sério demais, não tem humor, não que seja obrigada a ter graça, mas precisa de alguma comunicação, de conseguir pegar o leitor pelo pescoço". Curiosamente, Gregorio escolheu estrear a montagem em Portugal, berço da língua portuguesa. "Existe ali um amor muito grande pelo idioma e, além disso, há toda a comunidade brasileira vivendo lá. Falar de língua em Portugal é especialmente gostoso por causa disso: há muitas semelhanças, claro, afinal falamos o mesmo idioma, mas também muitas diferenças", analisa.
Durante sua estadia em Belo Horizonte, Gregorio também terá a oportunidade de encontrar seu pai, o músico Edgar Duvivier, que apresentará o show "Influência do Jazz" no Teatro do Centro Cultural Unimed-BH Minas no sábado. "Sou fã do meu pai, o show dele é incrível. Minha mãe também vai, então vai estar a família toda por lá", comenta, finalizando com um convite ao público: "Não percam o show do meu pai, porque ele é realmente muito especial."