
Foto: Banco Central/Reprodução
Edinho Silva, presidente do PT, contestou nesta segunda-feira as declarações de Gabriel Galípolo, atual presidente do Banco Central (BC), que afirmou não ter encontrado indícios de que Roberto Campos Neto tenha favorecido o Banco Master e Daniel Vorcaro. Silva enfatizou que, com investigações em andamento na Polícia Federal e no Ministério Público, o BC também deve manter apurações sobre a gestão anterior. Em entrevista à Record News, Edinho Silva expressou "muito respeito" pelo trabalho de Galípolo, de quem se considera amigo pessoal, mas avaliou que o posicionamento do presidente da instituição está "fora de contexto".
Ele destacou que o Banco Master foi autorizado a funcionar durante o governo Bolsonaro, na gestão de Campos Neto, com diversas operações aprovadas pelo BC. "O Banco Master foi autorizado a funcionar durante o governo Bolsonaro, na gestão de Campos Neto, com várias operações autorizadas pelo Banco Central. Se o Master existe e provocou operações fraudulentas, a reponsabilidade é do governo Bolsonaro e do Campos Neto", afirmou Edinho. "Nesse cenário, como você pode isentar alguém?", questionou. A declaração de Galípolo que gerou a reação de Edinho Silva ocorreu na última quarta-feira, durante seu depoimento na CPI do Crime Organizado. Questionado pelo presidente da comissão, Fabiano Contarato (PT-ES), se tinha conhecimento de que Campos Neto teria agido para evitar a liquidação ou intervenção no Master ao longo de 2024, Galípolo respondeu que a sindicância do BC "não encontrou nada nesse sentido".
Galípolo também argumentou que a liquidação do Master não poderia ter sido decretada antes porque o BC precisa seguir determinados ritos. "Eu cheguei em janeiro de 2025, tive que seguir todos os ritos para que estivéssemos bem calçados e ainda estou respondendo a processos de órgãos de controle sobre se a liquidação não foi feito de forma precipitada", explicou. Para Edinho Silva, no entanto, qualquer avaliação sobre possível isenção só deverá ocorrer após a conclusão das investigações. O presidente do PT mencionou o envolvimento do ex-diretor do Banco Central, Paulo Souza, e Belline Santana, afastados do cargo por suspeitas de ligações com Vorcaro, por decisão do ministro André Mendonça, relator do caso no Supremo Tribunal Federal (STF).
Conforme revelado pela colunista Malu Gaspar, do GLOBO, a estratégia do Palácio do Planalto em responsabilizar Campos Neto pelo escândalo foi combinada no início de março em reunião com a presença de Galípolo e do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Rui Costa, Fernando Haddad e Sidônio Palmeira também participaram do encontro. As afirmações de Galípolo irritaram ministros próximos a Lula. Enquanto o presidente do BC isentava Campos Neto no Congresso, o presidente Lula afirmava em entrevista ao canal ICL que "o Master é obra, é ovo da serpente do Bolsonaro e do Campos Neto".
O deputado federal e vice-líder do PT na Câmara, Lindbergh Farias (RJ), também criticou o que chamou de "corporativismo" dentro do Banco Central. Em entrevista à Globonews, o parlamentar defendeu que a Polícia Federal "investigue tudo" e entenda "quem está protegendo quem". "No mínimo, tem um corporativismo do Banco Central, porque ele [Galípolo] disse que não tinha nada em auditorias e sindicâncias", disse Lindbergh. "Sinceramente, eu acho que essa postura dele joga luz sobre todo o Banco Central. A Polícia Federal tem que investigar tudo, quem está protegendo quem, como foi feito. Acho que só existe esse caminho." Segundo reportagem do GLOBO, o Palácio do Planalto está empenhado em vincular o caso Master ao ex-presidente Bolsonaro e seus aliados.
Campos Neto foi indicado à presidência do Banco Central por Bolsonaro em 2019, permanecendo no cargo até janeiro de 2025. Durante a gestão de Campos Neto, o Banco Central recebeu diversos alertas sobre a expansão acelerada do Banco Master, que acabou sendo liquidado em novembro do ano passado em meio a alegações de fraude. O Fundo Garantidor de Crédito (FGC) enviou cartas de advertência ao BC, enquanto executivos dos maiores bancos do Brasil, principais financiadores do FGC, também expressaram preocupações à autoridade monetária.