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O Banco Master concedeu aproximadamente R$ 6 bilhões em empréstimos consignados desde que assumiu o programa Credcesta da Bahia em 2018 até sua liquidação pelo Banco Central em novembro de 2025. Dados revelam que foram fechados 2.814.502 contratos nesse período, totalizando R$ 5,981 bilhões. A operação de cartão consignado foi o principal negócio da instituição financeira.
O modelo de negócio do Banco Master era altamente lucrativo, baseado em taxas de juros de rotativo que podiam chegar a 6% ou 8% ao mês, sem risco de inadimplência, já que as parcelas eram descontadas diretamente na folha de pagamento, sem possibilidade de portabilidade pelo cliente. A instituição também lucrava com a venda casada de outros produtos financeiros, como o seguro prestamista oferecido pela Kovr, seguradora do grupo que foi vendida para o PicPay pouco antes da liquidação do banco. O Banco Master conseguia acesso privilegiado às folhas de pagamento de estados e prefeituras frequentemente sem enfrentar concorrência, graças a conexões políticas.
Em algumas localidades, a exclusividade era garantida por decreto; em outras, o banco se credenciava primeiro, obtendo vantagem competitiva. Além disso, o Master era proprietário da Consiglog, empresa responsável pela averbação e gestão dos descontos, o que lhe dava acesso a informações dos concorrentes e dos recursos disponíveis para consignar nas folhas dos servidores. Quando os desfalques no balanço começaram a ficar evidentes e o banco precisou se capitalizar por determinação do BC, o Banco Master passou a vender suas carteiras de consignado.
Como os contratos duravam pelo menos 8 anos, as carteiras eram vendidas com ágio significativo, frequentemente dobrando o valor original. O BTG pagou R$ 1,1 bilhão por uma carteira do Master, enquanto o BRB pagou ágios ainda maiores, adquirindo mais de R$ 12 bilhões em carteiras, parte das quais se revelou fraudulenta. Atualmente, uma parte significativa das carteiras legítimas está bloqueada por decisões judiciais.
No Rio de Janeiro, a Justiça determinou que os descontos sejam direcionados para uma conta judicial visando ressarcir a RioPrevidência, o regime de previdência dos servidores que investiu mais de R$ 1 bilhão em papéis do Banco Master. A trajetória do Banco Master com cartões consignados começou na Bahia, onde um contrato firmado em 2018, durante a gestão do governador Rui Costa (PT), garantiu 15 anos de exclusividade, permitindo consignar 30% da folha de pagamento de todos os servidores e aposentados do estado.
A instituição expandiu para o Rio de Janeiro durante a gestão de Cláudio Castro e para outros estados. Foi em 2020, durante o governo de Jair Bolsonaro, que o banco expandiu nacionalmente sua carteira de consignado ao firmar convênio com o INSS. Do início desse convênio até setembro de 2025, foram firmados 324 mil contratos com aposentados e pensionistas do INSS, dos quais 250 mil foram posteriormente considerados irregulares pela atual gestão do instituto. O Banco Master difundiu o cartão consignado usando práticas comerciais pouco transparentes, levando aposentados e servidores a entrarem no rotativo do cartão sem pleno conhecimento. Os clientes aderiam ao cartão pensando estar realizando uma operação de crédito comum, quando na realidade tratava-se de um saque no cartão. Muitas vezes, o cliente sequer recebia ou utilizava o cartão.
O desconto na folha cobria apenas a fatura mínima, enquanto o principal da dívida caía no rotativo, tornando a dívida praticamente impagável. Do total da carteira, R$ 1,22 bilhão foi originado diretamente pelo banco, enquanto o restante contou com a participação de correspondentes bancários ou promotores de vendas. Demonstrações do Imposto de Renda do Banco Master, obtidas pelos colunistas do UOL Fabio Serapião e Natália Portinari, revelam que a instituição pagou pelo menos R$ 326 milhões para empresas que atuam como correspondentes bancários ou promotores de vendas entre 2021 e 2024. A liquidação do Banco Master pelo Banco Central encerrou um ciclo de operações questionáveis no mercado de crédito consignado, deixando um legado de processos judiciais e investigações sobre suas práticas comerciais.