Estudos na Europa e nos EUA indicam que o transtorno pode ter múltiplas origens genéticas e trajetórias que ainda estamos longe de entender suas causas ...

Foto: Agência IBGE
Durante décadas, o autismo foi tratado como uma única condição. Agora, a própria ciência começa a desmontar essa ideia — e o que está surgindo no lugar é muito mais complexo e, ao mesmo tempo, intrigante. Um estudo internacional liderado pela Universidade de Cambridge, com dados de mais de 45 mil pessoas na Europa e nos Estados Unidos, revelou que o autismo não é um único transtorno, mas um conjunto de condições com bases genéticas diferentes.
“Não esperávamos uma variação genética tão ampla”, afirmou o neurocientista Varun Warrier, um dos autores do estudo. Na prática, isso significa que duas pessoas diagnosticadas com autismo podem ter origens biológicas completamente distintas — e até trajetórias de vida diferentes. Essa descoberta ajuda a explicar outro dado que vem chamando atenção nos EUA: o número de diagnósticos continua crescendo.
Hoje, cerca de 1 em cada 31 crianças é identificada dentro do espectro autista, segundo o CDC. Mas esse aumento não necessariamente indica uma “epidemia”. Parte dele pode ser resultado de diagnósticos mais precisos — especialmente em grupos historicamente negligenciados, como meninas.
Apesar dos avanços, os pesquisadores são diretos: ainda estamos longe de entender as causas do autismo. “Qualquer promessa de descobrir as verdadeiras causas rapidamente é bravata”, alerta o pesquisador brasileiro radicado no debate científico internacional Lucelmo Lacerda.
Essa cautela é compartilhada por pesquisadores europeus. Um estudo publicado na revista Neuron, liderado pelo neurobiólogo Kevin Mitchell, descartou uma das teorias mais populares: a relação direta entre o microbioma intestinal e o autismo. “Não existe evidência sólida que sustente essa relação causal”, concluem os autores. Ou seja: hipóteses simples estão sendo derrubadas — e substituídas por um cenário muito mais complexo, envolvendo genética, desenvolvimento cerebral e fatores ambientais.
Enquanto as causas ainda são debatidas, a tecnologia já começa a mudar o jogo. Pesquisas nos EUA vêm utilizando inteligência artificial e neuroimagem para identificar padrões cerebrais associados ao autismo com maior precisão. Estudos recentes mostram que modelos baseados em dados cerebrais e comportamentais podem melhorar significativamente o diagnóstico precoce.
Ao mesmo tempo, iniciativas como a do neurocientista Alysson Muotri, na Universidade da Califórnia, apontam para um futuro de medicina personalizada — onde cada indivíduo no espectro poderá ter um tratamento específico baseado no seu perfil genético.