Que a torcida cruzeirense enterre de vez essa viuvez com esse português traíra porque agora quem precisa do apoio é o elenco, o Tite e o próprio clube

Frank Martins: “A ida de Leonardo Jardim para o Flamengo diz mais sobre o caráter dele do que sobre os esforços do Cruzeiro para mantê-lo”
Que a torcida cruzeirense enterre de vez essa viuvez com esse português traíra porque agora quem precisa do apoio é o elenco, o Tite e o próprio clube
Não deve haver um cruzeirense sequer que não tenha sentido um gosto amargo na boca quando a notícia caiu como uma bomba nesta terça-feira: Leonardo Jardim acertou com o Flamengo.
A decepção não é apenas pela saída. Técnicos saem, ciclos acabam, isso faz parte do futebol. O que dói é a forma como aconteceu. Porque o mesmo treinador que repetiu diversas vezes que, no Brasil, só treinaria o Cruzeiro, agora veste vermelho e preto sem sequer corar.
É impossível ignorar o contraste entre discurso e atitude. O Cruzeiro, na figura de Pedro Lourenço, fez tudo para manter Leonardo Jardim. Ofereceu um contrato longo, superior a cinco anos, autonomia total no futebol, algo que ele já possuía, e um salário no nível dos maiores treinadores do país, comparável ao de Abel Ferreira no Palmeiras.
Ou seja, estrutura, confiança, estabilidade e poder. Poucos técnicos no Brasil têm esse pacote. Mesmo assim, ele decidiu sair.
E é curioso porque, olhando friamente, Leonardo Jardim não ganhou nada no Cruzeiro. Nenhum título. Nenhuma taça para colocar na estante da Toca da Raposa. Pelo contrário, houve tropeços dolorosos. O Cruzeiro perdeu no Mineirão para Sport e Ceará, tropeçou contra o Sport, empatou com o rival local duas vezes pelo Brasileirão.
Talvez o momento mais simbólico desse desgaste tenha sido a semifinal da Copa do Brasil contra o Corinthians. Aquele ambiente já estava contaminado pela possibilidade de saída do treinador. O elenco sentiu. O time entrou abalado. E o sonho da final escapou entre dúvidas e incertezas.
Mas o que torna tudo ainda mais indigesto é outro detalhe. Quando decidiu deixar o Cruzeiro, Leonardo Jardim garantiu que não treinaria outro clube no Brasil. Essa promessa teve consequências práticas. O próprio Pedrinho abriu mão de cobrar a multa contratual que seria devida caso ele aceitasse trabalhar em outro time brasileiro.
Ou seja, houve confiança. Houve palavra. Houve respeito institucional. Agora sabemos que isso durou pouco.
Por isso a frustração da torcida é compreensível. O torcedor não se apega apenas ao resultado. Ele se apega à coerência, ao caráter e à sensação de pertencimento. E quando alguém que parecia comprometido muda de lado com tanta facilidade, o sentimento inevitável é de traição.
Mas talvez exista um lado pedagógico nessa história. Foi o próprio Leonardo Jardim quem ensinou que o torcedor deve apoiar o clube, não as pessoas. Foi ele quem teve coragem de barrar medalhões como Gabigol e Dudu quando entendeu que o coletivo estava acima do individual.
Agora o destino devolve essa lição para a própria torcida. Chega de luto. Chega de nostalgia. O Cruzeiro continua. O Cruzeiro é maior que qualquer treinador, maior que qualquer jogador, maior que qualquer projeto individual.
Agora quem precisa do apoio é o elenco, o Tite e o próprio clube. O time ainda está em afirmação na temporada, ainda busca identidade e confiança, mas terá a chance perfeita para transformar frustração em combustível.
Porque o futebol adora ironias. Primeiro vem a final do Campeonato Mineiro contra o Atlético. Um título que pode devolver moral, confiança e união ao grupo. E logo depois, como se os deuses do futebol gostassem de escrever roteiros dramáticos, o Cruzeiro enfrentará justamente o Flamengo de Leonardo Jardim.
Talvez não exista resposta melhor do que essa.
Ganhar o Mineiro. Ganhar do Flamengo.
E seguir em frente mostrando que, no fim das contas, ninguém é maior que o Cruzeiro.