Eleições nos EUA podem impor primeiros obstáculos a Trump

Donald Trump - Foto: Gage Skidmore / Wikimedia Commons
Midterms nos EUA podem dar aos democratas o controle do Congresso e limitar a agenda de Trump nos próximos dois anos
Os eleitores dos Estados Unidos foram às urnas nesta terça-feira (3/11) para escolher os novos integrantes do Congresso em uma eleição que pode impor os primeiros grandes obstáculos ao segundo mandato de Donald Trump.
O pleito define todos os novos integrantes da Câmara e um terço do Senado, e ocorre em um momento de desgaste da administração republicana, marcado pela queda na aprovação presidencial, pelo prolongamento da guerra contra o Irã e pelo aumento do custo de vida.
Com a maioria republicana ameaçada nas duas Casas legislativas, os democratas enxergam uma oportunidade de recuperar espaço em Washington e limitar a capacidade de atuação do presidente nos próximos dois anos.
Na véspera das eleições, conhecidas como midterms ou eleições de meio de mandato, uma nova pesquisa Reuters/Ipsos revelou números desfavoráveis ao governo. A aprovação de Trump segue em 32%, mesmo índice do levantamento anterior e próximo da mínima de 31%, registrada em 19 de outubro.
Entre os entrevistados, 46% disseram preferir candidatos democratas para o Congresso, contra 38% que optaram por republicanos. Entre os eleitores independentes, metade afirmou que pretende votar contra Trump. O levantamento ouviu 1.765 eleitores e tem margem de erro de dois pontos percentuais.
A expectativa é de disputa acirrada, especialmente pelas cadeiras no Senado. Em relação à Câmara, os democratas aparecem em posição favorável para recuperar a maioria, com projeções apontando mais de 90% de chance de conquista. No Senado, as estimativas também indicam vantagem democrata, embora a disputa seja mais apertada.
As principais preocupações dos eleitores
A economia ocupa o centro das preocupações do eleitorado, diante da alta nos preços de combustíveis, alimentos, saúde e moradia. O prolongamento da guerra envolvendo EUA, Israel e Irã pressiona ainda mais o custo de vida e gera críticas à política externa de Trump.
Os democratas atribuem às tarifas comerciais o encarecimento dos produtos, enquanto os republicanos destacam o endurecimento das políticas migratórias como uma conquista do governo. A regulamentação da inteligência artificial também ganhou espaço no debate eleitoral.
Na véspera da votação, Trump intensificou a mobilização de apoiadores para tentar preservar a maioria republicana no Congresso. Em discurso de aproximadamente 50 minutos no espelho d"água do Lincoln Memorial, em Washington, o presidente classificou o pleito como o mais importante de suas vidas e voltou a atacar os adversários.
"O Partido Democrata indicou a lista de candidatos mais extremista e perigosa da história americana", declarou.
O republicano também acusou os adversários de defenderem fronteiras abertas, aumento de impostos, restrições ao porte de armas e políticas que, segundo ele, elevariam os custos de energia e ampliariam a imigração.
Ao defender seu governo, Trump afirmou que os Estados Unidos vivem uma "era de ouro" e destacou o desempenho econômico de sua administração, pedindo que os apoiadores tratem a votação como se ele próprio estivesse na disputa.
O discurso ocorreu em meio à insatisfação de parte do eleitorado com o custo de vida. Até mesmo estrategistas republicanos demonstraram preocupação com o fato de Trump dedicar atenção a projetos de reforma e construção de monumentos em Washington enquanto os americanos enfrentam dificuldades econômicas.
O que uma vitória democrata pode mudar
Uma eventual vitória democrata em pelo menos uma das Casas do Congresso representaria uma mudança importante na relação entre o Legislativo e a Casa Branca.
Com o controle da Câmara, a oposição passaria a comandar as comissões parlamentares e teria instrumentos para convocar integrantes do governo, solicitar documentos e abrir investigações sobre a administração republicana.
O governo também poderia enfrentar questionamentos sobre contratos, conflitos de interesse e medidas adotadas por meio de decretos presidenciais.
A possibilidade de um novo processo de impeachment também pode ganhar força entre os democratas. A Câmara dos Representantes tem competência para apresentar acusações contra o presidente, enquanto cabe ao Senado conduzir o julgamento político. Uma eventual condenação, contudo, exige o apoio de dois terços dos senadores.
No Senado, a mudança de maioria permitiria à oposição dificultar a confirmação de indicações presidenciais para cargos de alto escalão, embaixadas e tribunais federais, incluindo eventuais vagas na Suprema Corte.
Trump ainda poderia recorrer a ordens executivas para implementar parte de sua agenda, mas enfrentaria maior resistência institucional e dificuldades para transformar suas propostas em leis.
O resultado das midterms também deve influenciar as articulações para a eleição presidencial de 2028, da qual Trump não poderá participar por já ter exercido dois mandatos.



