Educação e segurança dividem propostas de Lula e Flávio para a infância

Presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) vão ao segundo turno nas eleições deste ano • Divulgação/Campanhas
O UNICEF analisou os planos de Lula e Flávio Bolsonaro e identificou abordagens distintas sobre educação, saúde e violência infantil
O presente que muitos pais gostariam de dar aos filhos não cabe em uma caixa: é acesso a uma boa escola, atendimento de saúde e segurança para crescer. Neste Dia das Crianças, essas expectativas também passam pelas escolhas políticas que podem definir o futuro do país.
Uma análise do Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) identificou 37 menções a crianças e adolescentes no plano de governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e 28 no documento de Flávio Bolsonaro (PL), revelando abordagens distintas sobre educação, saúde e proteção social.
A reportagem enviou perguntas específicas às duas campanhas sobre as propostas para crianças e adolescentes, incluindo metas, financiamento e formas de execução. Até a publicação deste texto, não houve resposta. A comparação considera, portanto, os planos apresentados ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e os levantamentos públicos disponíveis.
Vale destacar que a diferença no número de menções não significa que todas as políticas capazes de beneficiar crianças estejam contempladas na contagem do UNICEF, que analisa apenas referências explícitas nos documentos.
As propostas de Flávio Bolsonaro
O plano de governo de Flávio Bolsonaro reúne 28 menções a crianças e adolescentes, segundo o levantamento do UNICEF. A educação é o tema mais recorrente, com 11 referências, seguida por violência e segurança pública, com sete. A saúde aparece três vezes, o esporte é citado uma vez e outras seis menções foram classificadas na categoria de outros direitos.
A principal bandeira defendida pelo candidato do PL é a criação de um voucher-creche: quando não houver vaga na rede pública, a família receberia um benefício para matricular a criança em uma instituição privada credenciada, até que surja uma vaga pública.
Apesar da presença da educação no documento, a análise qualitativa do UNICEF identificou maior ênfase em medidas de punição e resposta à violência. Entre os exemplos estão propostas relacionadas ao aumento de penas, à ampliação do policiamento e a mudanças no sistema socioeducativo.
Flávio Bolsonaro já defendeu abertamente a redução da maioridade penal, que hoje é de 18 anos. Segundo o UNICEF, os planos que defendem essa medida não apresentam evidências ou dados que demonstrem sua eficácia para reduzir a criminalidade.
As propostas de Lula
No plano de governo de Lula, as 37 menções a crianças e adolescentes estão distribuídas principalmente entre violência e segurança pública, com dez referências; proteção social, também com dez; e saúde, com sete. A educação aparece seis vezes.
De acordo com a análise do UNICEF, o documento do presidente dá maior ênfase à prevenção da violência contra crianças e adolescentes, articulando diferentes áreas, como educação, assistência social e saúde, para evitar que as violações aconteçam.
Em seu plano, Lula afirma que pretende lançar uma segunda edição do Novo Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), com mais recursos para que governos locais avancem no cumprimento das metas do Plano Nacional de Educação (PNE).
O documento também propõe ampliar o ensino em tempo integral, com recursos do Fundeb e do Novo PAC, além de fortalecer medidas de apoio à formação de professores.
Um cenário preocupante
A discussão sobre a infância no Brasil ocorre em um contexto alarmante. Segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública deste ano, 2.079 crianças e adolescentes foram mortos de forma violenta em 2025, uma média de quase seis por dia.
No mesmo período, foram registrados mais de 38 mil casos de maus-tratos dentro de casa, aumento de 106% em relação a 2024, além de 61 mil registros de estupro e estupro de vulnerável. A maioria dos casos de violência sexual ocorreu no ambiente doméstico e foi praticada por alguém conhecido da vítima.
Diante desse cenário, o UNICEF defende que o enfrentamento da violência não se limite à investigação e à punição dos responsáveis. A organização recomenda fortalecer políticas de prevenção, apoiar as famílias e integrar ações de educação, saúde e assistência social.
O UNICEF também propõe a criação de uma Política Nacional de Prevenção de Violências contra Adolescentes, com atuação conjunta de diferentes áreas do poder público.