Pitty lança sexto álbum solo de estúdio

Foto: Reprodução/Instagram
Novo álbum homônimo de Pitty retoma raízes do punk rock e flerta com metal e pop, mas deixa "Matriz" para trás
Pitty lança seu sexto álbum solo de estúdio nesta sexta-feira, 16 de outubro, com 12 músicas que reativam o chip do punk rock e flertam com o metal, o pop contemporâneo e até o tecnobrega. O disco homônimo, disponível em edição digital e em LP fabricado pela gravadora Deck, foi produzido por Rafael Ramos em parceria com a própria artista, e traz um repertório inteiramente assinado por Pitty, sem colaboradores nas composições. O álbum chega sete anos após "Matriz" (2019), trabalho em que Pitty expandiu sua sonoridade ao passar a Bahia natal pelo filtro do rock. O novo disco, no entanto, parece ignorar essa evolução: é como se "Matriz" não tivesse existido na trajetória fonográfica da cantora, compositora e instrumentista baiana.
Em essência, ao longo do álbum "Pitty", a artista reativa o chip do punk rock em músicas como a assertiva "Não à deriva", faixa que tangencia o stoner rock, e flerta com o peso do metal em "Desobediente", que termina com toques da música oriental na produção feita com a adesão de Nave. O trabalho traz de volta a Pitty de outrora, mas com a experiência dos 49 anos — completados em 7 de outubro — e com a maturidade de quem já atravessou problemas de saúde, criou uma filha já pré-adolescente e viveu uma separação cujas dores são expiadas nos versos do blues-rock "Álbum de casamento". "Eu vou botar no papel tudo o que doer / É caminho pra absorver, trilha pra elaborar / ... / Devolva minhas senhas, eu confiei em você / A minha autoestima, não precisa devolver / Eu já tomei de volta a posse do que é meu / Minha arte, meu corpo, minha maternidade / A minha insanidade quem resolve sou eu", determina Pitty, dando o tom altivo das letras do álbum.
O corpo estranho no disco é "Pileque de poeta", faixa feita com a adesão de Felipe Vassão (coprodução, programação e teclados) que acena para a pista do pop contemporâneo, fora de sintonia com o tom geral do trabalho. Já "Sobriedade seletiva", outra faixa formatada com a colaboração de Vassão, soa mais integrada à atmosfera roqueira ao harmonizar elementos de punk-disco e house. "Amiga," também se diferencia no conjunto da obra, soando como um rock em flerte fugaz com o universo do tecnobrega.
Curiosamente, o álbum se agiganta quando os beats se desaceleram e a guitarra de Martin Mendonça perde a fúria que sustenta músicas como "Armadura". Esse crescimento é nítido em "Caminhada", balada em que Pitty versa sobre sororidade feminina. "Não estamos sozinhas, embora tentem dizer / Que a nossa única escolha é ceder ou morrer / A gente se reconhece pelo rastro e pela voz / O que tentaram quebrar em ti dói em todas nós / Não aceito que te calem, não aceito o teu fim / Cuidar de você é também cuidar de mim", ressalta a artista. Já o rock-balada "Cuidada" é um afetivo acerto póstumo de contas de Pitty com a mãe, Laurita, já falecida. Em outra letra interessante, Pitty se dirige à mãe com a experiência de ela própria já ser mãe de Madalena. No geral pautado pela fúria incandescente das guitarras, sobressalentes em faixas como "Madame" e harmonizadas com o baixo de Paulo Kishimoto, a bateria de Nico e os teclados de Rodrigo Tavares, o álbum termina com "Nó", rock sobre recomeço. "Pior que cair é nem tentar andar", sentencia a roqueira em verso de "Nó". Por mais que o álbum "Pitty" deixe a sensação de que a artista deu dois passos para trás, o fato é que Pitty tem se mantido de pé, em movimento.