Acordo com família forçou refilmagens de filme de Michael Jackson

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Uma cláusula do acordo de 1994 entre Michael Jackson e a família Chandler forçou refilmagens e mudou o final da cinebiografia
Nos corredores do estádio de Wembley, em Londres, Michael Jackson pula no lugar para aquecer enquanto a banda já puxa a introdução de "Wanna Be Startin" Somethin"". Do lado de fora, 72 mil pessoas esperam. É com essa cena que Michael, a cinebiografia estrelada por Jaafar Jackson, abre, e é para esse mesmo palco, em 1988, que ela volta no final. No papel, porém, o filme começava em outro lugar: com a polícia invadindo o rancho Neverland. A troca não foi capricho de montagem. Michael termina em 1988, no auge da turnê Bad, por causa de um acordo assinado em 1994 entre o cantor e a família de Jordan Chandler, o garoto de 13 anos que o acusou de abuso sexual em 1993, acusação que Michael Jackson sempre negou.
O roteiro original de John Logan usava o caso Chandler como moldura narrativa. O escândalo tomava conta da parte final do longa, e Antoine Fuqua chegou a rodar uma sequência inteira recriando a batida policial de 1993 em Neverland, que culminava na revista corporal a que o cantor foi submetido pelos investigadores. A proposta era mostrar o impacto das acusações na vida do artista, e essa versão chegava até o julgamento de 2005, em outro caso, que terminou com a absolvição de Michael Jackson em todas as acusações. O filme que estreou seria bem mais sombrio e iria muito mais longe na linha do tempo.
O problema estava num documento com três décadas de idade. Em 1994, Michael Jackson fechou um acordo milionário com a família Chandler para encerrar o processo civil aberto no ano anterior, e nenhuma acusação criminal chegou a ser apresentada. Larry Feldman, advogado que negociou o acordo pelos Chandler, contou que nenhum dos lados podia divulgar ou comunicar o que tinha acontecido. Antoine Fuqua, John Logan e o produtor Graham King só descobriram a cláusula no segundo semestre de 2024, depois que uma reportagem do Financial Times revelou pagamentos feitos pelo espólio a outros acusadores em 2020. A essa altura, as filmagens já tinham terminado. O espólio, que coproduz o filme e tem o advogado John Branca entre os produtores — o mesmo Branca que aparece na tela interpretado por Miles Teller —, não podia lançar aquele material sem violar o acordo.
Em junho de 2025, o elenco voltou a Los Angeles para 22 dias de filmagens adicionais. A conta, estimada em US$ 15 milhões, incluiu um final novo em folha e cenas extras para dar corpo a trechos anteriores. Segundo a Variety, a Lionsgate não arcou com o custo das refilmagens. Depois de mais de um adiamento, o filme só chegou aos cinemas em abril de 2026. A nova moldura troca a polícia em Neverland pelo show em Wembley. Michael abre com o cantor prestes a pisar no palco, volta à infância em Gary, Indiana, e retorna ao mesmo estádio no fim para mostrar "Bad" na íntegra. Antes dos créditos, uma cartela avisa: "His Story Continues". Difícil não enxergar ali uma referência a HIStory, o álbum de 1995.
Do ponto de vista dramático, o recorte faz sentido. A história que o filme escolhe contar é a de um garoto tentando se libertar do pai, Joe Jackson (Colman Domingo), e 1988 é o clímax dessa jornada. Michael já seguia carreira longe dos irmãos, havia se recuperado do acidente no comercial da Pepsi em 1984 e lotava estádios com Bad, o primeiro álbum da história a emplacar cinco singles no topo da Billboard. Só em Wembley foram sete shows esgotados, para cerca de 504 mil pessoas. Mas 1988 também é o último ano em que a imagem de Michael Jackson era praticamente intocada. As acusações só vieram a público em 1993, e esse é o argumento de Spike Lee, que já trabalhou com o cantor, para defender o recorte temporal do filme.
A Lionsgate já trabalha na continuação. Adam Fogelson, presidente da divisão de cinema do estúdio, disse a investidores que as filmagens devem começar entre o fim de 2026 e o início de 2027, mirando uma estreia entre o fim de 2027 e o primeiro semestre de 2028. Parte do material, inclusive, já existe: segundo ele, há sequências, principalmente grandes números musicais, gravadas para o primeiro filme e que ficaram fora do corte final. Jaafar Jackson deve voltar ao papel, e Antoine Fuqua já disse que ficaria arrasado se outra pessoa assumisse a direção. O desafio, porém, é evidente: quase tudo o que vem depois de 1988 passa, em algum momento, pelas acusações, e a cláusula do acordo com os Chandler vale para qualquer filme, inclusive uma sequência. Como contar os anos 1990 de Michael Jackson sem citar o caso que os definiu é uma pergunta que nem a Lionsgate respondeu ainda. Michael está disponível no Prime Video.