MASLD e cirrose podem estar ligadas a comer à noite, diz estudo

Foto: Andressa Anholete/Agência Senado
Estudo com 199 mil pessoas associa o hábito de comer tarde da noite a um risco 36% maior de MASLD e 28% maior de cirrose
Fazer um lanche noturno ou durante a madrugada pode não ser uma boa escolha para a saúde do fígado. Um novo estudo associou o consumo de alimentos nesse horário a dois tipos de doenças hepáticas: cirrose e doença hepática esteatótica associada à disfunção metabólica (MASLD). Os resultados foram publicados em 29 de setembro na revista "Clinical Gastroenterology and Hepatology" e analisaram dados de mais de 199 mil indivíduos com idade média de 59 anos. Os participantes fazem parte de pesquisas de saúde em andamento e responderam a questionários a cada 2 a 4 anos sobre estilo de vida e alimentação. O levantamento foi conduzido por pesquisadores da Universidade de Saúde e Ciência do Oregon (OHSU) e do Hospital Geral de Massachusetts.
Para fins da análise, comer tarde da noite foi definido como o horário correspondente a "depois da hora de dormir" ou "entre o jantar e a hora de dormir". Os autores identificaram um risco 28% maior de cirrose e 36% maior de MASLD em pessoas que têm o hábito de comer tarde da noite, em comparação com quem se alimenta em horários mais regulares. Embora o estudo tenha apontado aumento no risco das enfermidades, a cirrose permaneceu incomum na análise, registrando apenas 315 casos entre aproximadamente 200 mil participantes ao longo do acompanhamento.
A pesquisa teve um tempo mediano de acompanhamento de 16 anos, com ajustes que consideraram idade, índice de massa corporal (IMC) e atividade física. Mesmo com esses fatores ponderados, os riscos de desenvolvimento das doenças relacionados ao hábito de comer tarde da noite continuaram evidentes. Os autores acreditam que os ritmos circadianos podem estar ligados ao aumento desses riscos, uma vez que funcionam como o relógio biológico natural do corpo, mantendo um ciclo saudável entre os períodos de vigília e sono. "Alguns trabalhos já haviam sugerido essa ideia, mas esta é uma das primeiras análises de longo prazo a estabelecer explicitamente a ligação com a doença hepática gordurosa", afirma o hepatologista Robert Wilechansky, da OHSU, ao portal "Science Alert". Wilechansky acrescenta que é sabido que os ritmos circadianos do corpo estão sincronizados com o fígado.
Os pesquisadores observam ainda que a forma como o organismo processa os alimentos à noite pode ter influenciado os resultados. Embora o trabalho não comprove diretamente uma relação de causa e efeito, outros fatores podem estar envolvidos, já que o horário e a qualidade do sono não foram avaliados. Eles reforçam que o corpo humano possui diversos relógios circadianos, com o fígado mantendo um controle de tempo próprio integrado aos ritmos principais. Por conta disso, comer tarde da noite pode fazer com que o órgão não processe os alimentos de forma eficiente. Assim, os pesquisadores identificaram que comer à noite pode prejudicar o metabolismo e favorecer o acúmulo de gordura no fígado, devido à menor sensibilidade à insulina e ao menor gasto energético nesse período — condição que pode evoluir para complicações graves como a cirrose e a MASLD. Para comprovar essa relação e aprimorar as recomendações nutricionais, os cientistas da OHSU conduzem novos ensaios clínicos focados no impacto do horário das refeições na saúde hepática.