Europa registra 736 violações da liberdade de imprensa no 1º semestre de 2026

Jornalista | Imprensa - Foto: Freepik
Relatório registra 736 violações na Europa no primeiro semestre de 2026, com ambiente digital concentrando o maior número de casos
Um novo relatório do "Mapping Media Freedom" revela que a liberdade de imprensa na Europa enfrenta uma deterioração preocupante. Entre janeiro e junho de 2026, foram registradas 736 violações nos países da União Europeia e candidatos ao bloco, o que equivale a mais de quatro ocorrências por dia — um aumento de 3,8% em relação às 709 registradas no mesmo período de 2025. Ao todo, 1.174 jornalistas e outros profissionais ligados à mídia foram afetados.
Embora os riscos para jornalistas na Europa não se aproximem da violência física extrema registrada em regiões como América Latina ou Oriente Médio, as principais ferramentas usadas para intimidar e silenciar o jornalismo independente no continente são o assédio digital, a vigilância, o abuso do poder político e reformas legislativas restritivas.
O ambiente digital como principal campo de ataques
O ambiente online concentrou o maior número de ataques no primeiro semestre de 2026, com 238 casos, representando 32,3% do total. O assédio aparece principalmente na forma de insultos, ataques à credibilidade e tentativas de desacreditar jornalistas, registrados em 212 ocorrências. Ameaças foram identificadas em outros 155 casos, incluindo ameaças de morte.
Os responsáveis pelos ataques também recorreram a ferramentas digitais para atingir diretamente a identidade e os dados dos profissionais. O "Mapping Media Freedom" documentou casos em que autores se passaram por jornalistas ou copiaram a identidade visual de profissionais e veículos — em algumas situações com o auxílio de inteligência artificial — para disseminar informações e narrativas falsas. Outra prática registrada foi o doxxing, a exposição maliciosa de informações pessoais como nomes, fotografias, telefones e endereços residenciais.
O relatório documentou ainda 17 tentativas de apreender, acessar ou destruir dados jornalísticos. Em seis desses casos, jornalistas foram pressionados a revelar fontes confidenciais. Ataques de hacking e de negação de serviço (DDoS) também tiraram do ar, de forma temporária ou completa, sites e contas de redes sociais de jornalistas e veículos. Em 81% dos casos, os responsáveis permaneceram anônimos, situação que, segundo o relatório, aumenta o risco de impunidade.
Políticos e interferência legislativa
Políticos estão por trás de 136 ocorrências, ou 18,5% do total registrado na Europa. Considerando apenas os 27 países da União Europeia, essa participação chega a 25% dos casos. Segundo o "Mapping Media Freedom", políticos foram autores de ameaças, insultos e campanhas para desacreditar jornalistas, além de registros de agressões físicas, medidas judiciais e interferência direta no trabalho da imprensa.
Indivíduos privados, como empresários ou celebridades, continuam sendo o grupo mais frequente entre os autores identificados, com 195 ocorrências, ou 26,5% do total.
O relatório identificou 11 mudanças ou iniciativas legislativas no primeiro semestre de 2026 consideradas preocupantes para a liberdade de imprensa, envolvendo restrições a financiamento estrangeiro, independência da mídia pública, acesso à informação e vigilância.
Na Alemanha, autoridades do estado de Sarre aprovaram mudanças que retiraram salvaguardas específicas contra a vigilância técnica de jornalistas. Em Berlim, alterações propostas à legislação de acesso à informação foram adiadas após críticas de que poderiam prejudicar reportagens de interesse público. O governo também aprovou planos para substituir as taxas que financiam a radiodifusão pública por repasses diretos e menores do orçamento estatal, gerando preocupação com sustentabilidade financeira e independência política.
Detenções e prisões: Turquia lidera os casos
Entre janeiro e junho, o "Mapping Media Freedom" monitorou 47 casos de detenção, prisão ou encarceramento envolvendo 61 jornalistas nos países europeus analisados. A Turquia respondeu sozinha por 42 dessas ocorrências, ou 89% do total.
Trinta casos no país envolveram detenções ou prisões relacionadas à cobertura de protestos ou a publicações em redes sociais, com acusações recorrentes de desinformação. Outros 12 casos resultaram em condenações à prisão de 15 jornalistas, que somaram pelo menos 32 anos de reclusão, principalmente com base em leis antiterrorismo e de desinformação.
O relatório registra ainda detenções ou restrições contra jornalistas na Geórgia, Sérvia e Espanha. Na Geórgia, o jornalista azerbaijano exilado Afgan Sadygov foi deportado para o Azerbaijão horas depois de ser preso, apesar de medidas do Tribunal Europeu dos Direitos Humanos contrárias à extradição. A jornalista germano-ucraniana Marina Klimchuk teve a entrada negada no aeroporto de Tbilisi e permaneceu retida por quase 24 horas. Na Sérvia, fotojornalistas foram detidos enquanto cobriam manifestações e outros atos públicos. Uma missão realizada pelo MFRR no país apontou uma continuidade da violência contra profissionais de mídia, alimentada, segundo o grupo, por autoridades públicas, meios pró-governo e agentes de segurança.
Ucrânia: ataques físicos à infraestrutura de mídia
Na Ucrânia, o "Mapping Media Freedom" registrou nove casos de bombardeios, ataques de artilharia ou incêndios criminosos contra profissionais e infraestrutura de mídia no primeiro semestre — praticamente a totalidade das ocorrências desse tipo registradas no conjunto dos países analisados. Pequenas redações locais no leste do país foram especialmente atingidas, mas ataques russos também danificaram redações em capitais regionais e em Kiev. Em maio, uma ofensiva da Rússia contra a capital atingiu escritórios de vários veículos ucranianos e internacionais.
Segundo o relatório, a destruição repetida da infraestrutura de mídia mostra o impacto mais amplo da invasão russa sobre a capacidade de jornalistas continuarem trabalhando, especialmente nas regiões próximas à linha de frente e em áreas atingidas com frequência.
O "Mapping Media Freedom" faz parte do Media Freedom Rapid Response (MFRR), iniciativa que monitora violações da liberdade de imprensa nos 27 países da União Europeia e em países candidatos ao bloco. A região, que ao lado da América do Norte sempre figurou entre os lugares do mundo mais seguros para a prática do jornalismo, enfrenta agora um cenário de deterioração que, segundo o levantamento, não mostra sinais de reversão.