Inflação no Brasil tem alta de 0,82%, maior para setembro em cinco anos

Foto: Marcello Casal JrAgência Brasil
O IPCA registrou alta de 0,82% em setembro, acima do esperado, pressionado por energia elétrica, passagens aéreas e alimentos
O IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo) registrou alta de 0,82% em setembro, revertendo a queda de 0,32% observada em agosto, conforme divulgou o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) nesta sexta-feira (9). O resultado superou a mediana das projeções do mercado financeiro, que era de 0,76%, segundo a agência Bloomberg. A taxa de 0,82% representa a maior variação para meses de setembro em cinco anos, desde 2021, quando o índice marcou 1,16%. A volta ao campo positivo já era esperada pelo mercado, principalmente pelo encerramento do bônus de Itaipu, desconto temporário na conta de luz que havia puxado a deflação de agosto. No acumulado de 12 meses, o IPCA acelerou para 4,58%, ante 4,22% na leitura anterior, ultrapassando o teto de 4,5% da meta de inflação perseguida pelo BC (Banco Central).
Todos os nove grupos de produtos e serviços pesquisados no IPCA subiram em setembro. Habitação registrou a maior alta e o principal impacto no índice (2,31% e 0,35 ponto percentual), seguida por transportes (0,89% e 0,18 p.p.) e alimentação e bebidas (0,83% e 0,18 p.p.). No grupo de habitação, a pressão veio da energia elétrica residencial, que avançou 7,98% com o fim do bônus de Itaipu, mais do que devolvendo a queda registrada em agosto (-7,63%). A conta de luz respondeu pelo maior impacto individual no IPCA de setembro, de 0,32 ponto percentual. Segundo o IBGE, em um cenário hipotético sem a pressão da energia, o índice geral teria sido de 0,52%, em vez de 0,82%. No grupo de transportes, a pressão veio do aumento de 9,66% nas passagens aéreas e do avanço dos combustíveis (1,41%), com destaque para a gasolina (1,21%). Os alimentos, por sua vez, voltaram a subir após três meses consecutivos de queda. A alimentação no domicílio aumentou 0,96%, impulsionada por altas em produtos como tomate (37,76%), batata-inglesa (24,07%), cebola (10,14%), arroz (4,56%) e carnes (0,63%). Do lado das quedas, o IBGE destacou o frango inteiro (-1,96%), o frango em pedaços (-1,41%) e as frutas (-1,12%). Comer fora de casa também ficou mais caro: a alimentação fora do domicílio acelerou para 0,48% em setembro, após marcar 0,36% em agosto, abrangendo bares, lanchonetes e restaurantes.
A inflação é um dos temas centrais na corrida presidencial em curso no Brasil. O governo Lula (PT) chegou ao primeiro turno das eleições com a menor alta acumulada pelo IPCA em um mandato presidencial desde o início do Plano Real, cuja moeda entrou em circulação em julho de 1994. Apesar disso, o petista ficou atrás do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) na votação de domingo (4) e enfrenta o desafio de reverter a vantagem do adversário no segundo turno, marcado para 25 de outubro. Na avaliação de analistas, um dos fatores que prejudicam Lula é o mal-estar de parte da população com o nível dos preços. Itens de primeira necessidade, como os alimentos, subiram menos no terceiro governo do petista, mas essa variação incidiu sobre um patamar de custos que já pesava no orçamento familiar desde a pandemia. Flávio busca associar esse quadro à política econômica de Lula.
As projeções medianas do mercado financeiro indicam IPCA de 5,01% no acumulado dos 12 meses até dezembro de 2026, conforme o boletim Focus do BC, divulgado na segunda-feira (5). A estimativa está acima do teto de 4,5% da meta de inflação. A meta é considerada descumprida quando o acumulado permanece por seis meses seguidos fora do intervalo de tolerância, que vai de 1,5% (piso) a 4,5% (teto), com centro em 3%. O El Niño é um dos fatores que preocupam economistas a partir do segundo semestre de 2026. O evento climático desafia o agronegócio ao alterar a distribuição das chuvas e, em caso de perdas no campo, pode encarecer os alimentos para o consumidor urbano, além de pressionar custos no setor de energia. O IPCA é referência para a política de juros do BC. A taxa básica (Selic) está em 13,75% desde setembro. O Copom (Comitê de Política Monetária) volta a se reunir em 3 e 4 de novembro para definir o patamar da Selic. Analistas veem espaço para ao menos mais uma redução de 0,25 ponto percentual neste ano, o que levaria a taxa para 13,5%, conforme o boletim Focus. Mesmo em queda, a Selic permanece em nível que dificulta o consumo de parte dos bens e serviços. O aperto dos juros busca esfriar a demanda que pressiona a inflação, tendo como efeito colateral esperado a perda de ritmo da atividade econômica, que já se refletiu no PIB (Produto Interno Bruto).