Humberto Martins volta ao teatro após 15 anos em BH

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Humberto Martins retorna aos palcos em comédia sobre saúde mental, desejo e as contradições das relações humanas
Quem passa a vida tentando compreender a mente alheia está longe de ter todas as respostas sobre a própria existência. É nesse território de contradições que se desenrola "Psicóloga Segundo Meu Psiquiatra", espetáculo que marca o retorno de Humberto Martins ao teatro depois de mais de 15 anos longe dos palcos. A montagem tem apresentação única neste sábado (24/10), no Teatro do Centro Cultural Unimed-BH Minas, em Belo Horizonte. Ao lado de Aline Müller, Humberto Martins dá vida a uma história em que saúde mental, desejo e relações afetivas se encontram em um consultório nada convencional, entre provocações, revelações e situações tão absurdas quanto reconhecíveis.
A escolha do texto de Carlos Simões tem a ver com o que Humberto Martins buscava para essa nova etapa. Embora tenha formação teatral, o ator passou décadas conciliando sua trajetória com o trabalho na televisão, período em que os contratos de exclusividade com a TV Globo dificultavam a participação em peças. Com a abertura para novos projetos no cinema e no teatro, começou a imaginar como seria essa volta. A princípio, pensava em um monólogo escrito especialmente para ele. A possibilidade de dividir a cena com Aline Müller, porém, mudou os planos. "Eu achei muito interessante, pois queria algo que falasse diretamente com o público sobre as relações humanas conjugais e familiares de forma leve, para uma comédia romântica e reflexiva", conta Humberto Martins.
O texto, segundo ele, reunia as características que procurava: uma história divertida, mas com densidade suficiente para provocar o espectador. "Uma peça do jeito que eu imaginava para voltar aos palcos; leve de fazer, porém com um texto afiado e complexo, onde nos permite fazer com gosto e prazer", ressalta. Na trama, o psiquiatra vivido por Humberto Martins chega ao consultório em meio a uma crise pessoal. Os conflitos conjugais, as questões familiares e as dificuldades financeiras afetam sua vida emocional e até seu desejo sexual. É diante de uma psicóloga e terapeuta sexual, tão intensa quanto ele, que suas certezas começam a ruir. A relação entre os dois ganha contornos inesperados, num jogo de atração e provocações que também coloca em questão os limites éticos da relação profissional.
Para Humberto Martins, a intimidade criada durante as sessões abre espaço para desabafos, confrontos e sentimentos que aparecem sem filtros. "O que se vê é uma combinação de comédia de situação e de intenção ao mesmo tempo. Com flertes ao romance, ao modo deles, claro", diz o ator.
É justamente no equilíbrio entre o riso e o desconforto que Carlos Simões encontra a força do espetáculo. Para o diretor, o humor é uma maneira de aproximar o público de assuntos que nem sempre são fáceis de enfrentar. A gargalhada pode surgir de uma situação absurda, mas o reconhecimento vem logo depois, quando o espectador percebe algo familiar naquilo que acabou de ver. "O grande segredo é fazer o público rir de uma situação absurda e, segundos depois, perceber que existe uma verdade ali que toca diretamente a sua própria vida", afirma Simões. A experiência de Humberto Martins contribui para uma dinâmica em que a comicidade do texto não apaga a humanidade dos protagonistas da montagem. Em "Psicóloga Segundo Meu Psiquiatra", a saúde mental não aparece como uma responsabilidade reservada a especialistas, mas como parte de uma experiência humana cheia de conflitos, desejos e dúvidas.
O psiquiatra que procura ajuda precisa encarar questões que não consegue resolver sozinho, enquanto a terapeuta também revela suas contradições. O consultório vira, assim, um lugar onde as fronteiras entre quem cuida e quem precisa de cuidado ficam menos nítidas. Para o diretor Carlos Simões, reconhecer essa condição compartilhada é uma das reflexões que a peça pode despertar. "Queremos que o público se divirta com esse embate, mas também perceba que somos todos humanos, independentemente da profissão, e que reconhecer nossas fragilidades talvez seja o primeiro passo para compreendermos melhor a nós mesmos", explica. O riso, nesse caso, não elimina a complexidade dos assuntos abordados. É justamente o que permite olhar para eles por outro ângulo, sem perder de vista a seriedade das experiências que inspiram a história. Como resume o diretor, "o humor abre a porta, mas é a reflexão que fica depois que a cortina se fecha". De volta a uma linguagem que considera parte fundamental de sua formação, Humberto Martins reencontra no palco uma troca direta com o público. E espera que, entre uma provocação e outra, a plateia reconheça as próprias contradições, sem precisar sair do teatro com todas elas resolvidas. "Minha expectativa é que o público se divirta e veja como são controversos os caminhos capazes de levar à felicidade para o ser humano", conclui.