Eleições de 2026 expõem limites de alianças e reforçam polarização

Atos de Flávio Bolsonaro, no Rio de Janeiro, de Lula, em São Paulo • Reprodução/CNN
Flávio Bolsonaro e Lula chegam ao segundo turno enquanto coligações, emendas e apoio evangélico perdem força como fatores decisivos
As eleições de 2026 colocaram à prova uma série de premissas que historicamente nortearam as campanhas eleitorais brasileiras. Coligações amplas, apoio de igrejas evangélicas, emendas parlamentares e escândalos políticos não se mostraram tão determinantes quanto se esperava, enquanto identidades políticas consolidadas e o chamado "voto contra" voltaram a dominar o cenário eleitoral.
A disputa presidencial entre o presidente Lula (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL) chegou ao segundo turno marcada por crises, pacotes de medidas e uma intensa batalha nas redes sociais, repetindo a polarização entre petismo e bolsonarismo que define o país desde 2018.
Coligações não foram decisivas
Antes consideradas fundamentais para o sucesso das campanhas, as coligações perderam força como fator determinante nas disputas estaduais dos principais colégios eleitorais do país. No Rio de Janeiro, o ex-prefeito Eduardo Paes (PSD) construiu uma extensa rede de apoios partidários, atraindo políticos e siglas que haviam originalmente firmado acordos com seus adversários. Mesmo assim, saiu derrotado pelo presidente da Assembleia Legislativa, Douglas Ruas (PL), que concorreu em uma chapa restrita ao Avante e aos nanicos Mobiliza e Agir.
Na Baixada Fluminense, onde Paes foi avalizado por 10 dos 13 prefeitos, o resultado não foi diferente. Ruas contou com o endosso de Flávio Bolsonaro, que também enfrentou dificuldades para fechar alianças, disputando a Presidência isolado no PL no primeiro turno.
Após terminar à frente de Lula na primeira rodada, o senador recebeu o apoio de Republicanos, Progressistas e União Brasil.
Em Minas Gerais, o senador Cleitinho Azevedo (Republicanos) concorreu ao governo apenas com o suporte do Podemos e venceu com ampla vantagem sobre adversários com coligações muito mais robustas.
O cientista político e professor da Universidade Presbiteriana Mackenzie, Rodrigo Prando, atribui o resultado a uma campanha "personalista", construída a partir de um discurso antissistema. Para ele, Flávio Bolsonaro também cresceu ao investir em uma identidade própria que dialogou com o eleitorado de direita herdado do pai:
— As alianças foram necessárias, mas não suficientes, e pesaram menos do que as identidades políticas, nesse caso, o lulopetismo e o bolsonarismo. As coligações dão tempo de TV e estrutura partidária, mas não têm a capacidade essencial de transferir voto que a gente imagina.
Igrejas evangélicas acumulam derrotas
Candidatos apoiados pelas principais igrejas evangélicas do país acumularam derrotas nas disputas por vagas na Câmara dos Deputados. A Universal viu metade de seus 12 deputados que tentaram a reeleição fracassar, e parte de seus representantes, como o presidente nacional do Republicanos, Marcos Pereira (SP), se reelegeu com votações inferiores às de 2022.
A Assembleia de Deus também não conseguiu reeleger seus principais nomes, entre eles Otoni de Paula (PSD-RJ), ligado ao bispo Abner Ferreira, e Cezinha de Madureira (PL-SP), associado ao bispo Samuel Ferreira e ex-presidente da bancada evangélica. Gilberto Nascimento (Podemos-SP), Antônia Lúcia (MDB-AC) e Silas Câmara (Republicanos-AM) também perderam a reeleição.
Por outro lado, avançaram na Câmara candidatos bolsonaristas que se identificam com a fé cristã e se descrevem como conservadores, mas sem vinculação fixa com igrejas ou denominações. Entre os mais votados estiveram os deputados Nikolas Ferreira (PL-MG) e Lucas Pavanato (PL-SP), ambos evangélicos e conhecidos pela forte atuação nas redes sociais.
Emendas parlamentares não garantiram votos
Em volume recorde de R$ 61 bilhões no orçamento aprovado para este ano, as emendas parlamentares não se traduziram em aumento expressivo de votos para seus autores, segundo estudo da FGV. Com base em recursos enviados entre 2024 e 2026, os parlamentares tiveram uma média de 6,7% dos votos em seus redutos eleitorais, contra 5,9% na eleição anterior, uma diferença de apenas 0,8%. Nos locais não contemplados pelas emendas, a média foi de 1% em ambas as eleições.
George Avelino, professor do Centro de Política e Economia do Setor Público (Cepesp) da FGV e um dos autores do estudo, explica que as emendas funcionam mais como instrumento de preservação de apoios locais do que como ferramenta de obtenção de votos:
— A emenda é paga para manter apoios e votos. Isso se dá, por exemplo, numa disputa entre um desafiante e um incumbente, que já se provou nas urnas antes e que tem a confiança do partido. Assim, ele se torna poderoso do ponto de vista eleitoral e tem mais chances de ganhar a eleição, mas não tem a vitória como algo garantido.
Governadores perdem mesmo com a máquina pública
Nos estados, cinco governadores foram derrotados no primeiro turno mesmo com o controle do orçamento e da estrutura do Estado. Entre eles, Mateus Simões (PSD) em Minas Gerais e Hana Ghassan (MDB) no Pará, que assumiram a gestão em abril após as renúncias de Romeu Zema (Novo) e Helder Barbalho (MDB), respectivamente. Também foram derrotados Clécio Luís (União) no Amapá, Roberto Cidade (União) no Amazonas e Soldado Sampaio (Republicanos) em Roraima.
Governadores como Ratinho Júnior (PSD), do Paraná, e Eduardo Leite (PSD), do Rio Grande do Sul, que permaneceram no cargo até o fim do mandato, também não conseguiram eleger seus sucessores, derrotados por nomes do PL.
— Ainda há um índice de incumbentes reeleitos alto (11 de 19) e sabemos que a máquina pública ajuda, mas ela não substitui o capital político. Em um ambiente de eleições anti-establishment, quem encarna a mudança acaba vencendo quem tem a caneta — avalia Rodrigo Prando.
Escândalos não afastaram eleitores
Mesmo voltando a figurar entre as principais preocupações dos brasileiros, os escândalos políticos não afastaram a maioria do eleitorado. Flávio Bolsonaro teve expostos áudios enviados ao banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, nos quais pedia dinheiro para o financiamento do filme "Dark horse", inspirado em Jair Bolsonaro. Também voltaram a circular denúncias de envolvimento do senador no esquema de "rachadinha", arquivadas em 2022.
Já Lula viu o filho Fábio Luís, o Lulinha, ser investigado pela Polícia Federal por tráfico de influência pela proximidade com a lobista Roberta Luchsinger, que também se tornou alvo de inquéritos por sua ligação com Antônio Carlos Antunes, o Careca do INSS, e com Marco Aurélio Santana Ribeiro, o Marcola, ex-chefe de gabinete do presidente.
Segundo a pesquisa Quaest, 65% dos eleitores consideraram em setembro que as investigações sobre Lulinha prejudicavam a campanha de reeleição de Lula, e 64% disseram haver impacto do caso "Dark horse" na candidatura de Flávio Bolsonaro. Mesmo assim, os dois se mantiveram como favoritos e chegaram ao segundo turno.
Terceira via e propaganda eleitoral não decolaram
Candidatos como o ex-governador de Goiás Ronaldo Caiado (PSD) e o escritor e psiquiatra Augusto Cury (Avante) apostaram na propaganda eleitoral gratuita para se tornarem mais competitivos. Atrás de Lula e Flávio Bolsonaro, que tiveram 5 e 4 minutos, respectivamente, Caiado acumulou o terceiro maior tempo (2 minutos) e Cury teve 35 segundos. Romeu Zema (Novo) e Renan Santos (Missão) nem participaram do horário eleitoral, pois seus partidos não atingiram a cláusula de barreira.
Todos terminaram distantes dos dois líderes: Cury teve 2,89% dos votos válidos, Renan registrou 2,24%, Caiado obteve 2,18% e Zema teve 0,27%. Juntos, os candidatos da terceira via somaram apenas 7,58% dos votos válidos no primeiro turno, o pior desempenho do segmento desde a redemocratização.
O cientista político Carlos Melo, professor do Insper, aponta que a inclinação do grupo para a direita impôs um desafio adicional:
— Eles queriam provar que eram melhores que o Flávio e que poderiam ocupar o lugar dele no bolsonarismo, mas pouco fizeram por merecer para se distanciarem dele. Assim como Flávio, defenderam a anistia aos envolvidos no 8/1 e, na segurança pública, eram até mais radicais porque falavam sobre o modelo El Salvador (questionado por ferir direitos humanos). Era uma espécie de radicalização da segunda via e não uma terceira via que pudesse atender à demanda da população por um candidato de fora da polarização.
Lula sem crescimento de aprovação e pacote de medidas
Lula divergiu da tendência histórica de aumento de aprovação no ano final do mandato. Enquanto Jair Bolsonaro chegou à véspera do segundo turno de 2022 com 44% de aprovação, ante 27% um ano antes, Lula passou a campanha estacionado nos mesmos 42% registrados em dezembro de 2021, segundo levantamento do Ipec.
Pressionado pelo desempenho de Flávio Bolsonaro no primeiro turno, a campanha petista apostou em anúncios como o Desenrola 3.0, o reajuste do Bolsa Família, o pacote para MEIs, a desoneração dos combustíveis e o fim da escala 6x1.
— Esses anúncios têm tido resultados discretos para Lula, mas resta saber se haverá tempo para uma virada dele contra Flávio em um momento em que os votos já estão cristalizados para a maior parte da população. Também vale lembrar que, em 2022, o Auxílio Brasil turbinado pelo Bolsonaro não garantiu que ele conseguisse virar votos para vencer — pontua Rodrigo Prando. — Numa eleição de diferença pequena entre os candidatos, o eleitor tende a se decidir mais pela mobilização do que pela conversão.
Inteligência artificial nas redes
Apesar dos alertas sobre o uso de inteligência artificial para a circulação de desinformação, os modelos foram utilizados com mais frequência como estratégia para que eleitores demonstrassem suas orientações políticas nas redes sociais. O diagnóstico é do pesquisador Matheus Soares, coordenador do Observatório IA nas Eleições.
Entre os exemplos, houve a mobilização de eleitores lulistas para a criação de imagens geradas por IA em um "desafio" proposto no canal de WhatsApp "Exército do Lula", voltado para a publicação de fotos com a camisa do Brasil e o símbolo do "L".
— Observamos muitos conteúdos sintéticos produzidos pelos próprios eleitores, principalmente após o primeiro turno, para o reforço ao apoio aos candidatos não necessariamente com o intuito desinformativo, e sim para indicar seus posicionamentos políticos — diz Soares.
O "voto contra" define a eleição
Até as vésperas do segundo turno, 27% dos brasileiros se diziam independentes, acima dos 20% que se descreviam como lulistas e dos 15% como bolsonaristas, segundo a Quaest. Ainda assim, a eleição será decidida pela disputa entre petismo e bolsonarismo, repetindo a polarização que domina o país desde 2018.
Carlos Melo avalia que o eleitorado tem sido mais orientado pela rejeição do que pela preferência:
— Os eleitores convergem para estarem do lado daquele que seja capaz de derrotar quem eles acham que é pior e votam contra, não a favor. Desde 2018, as duas perguntas que têm orientado o voto são "quem é capaz de derrotar o Bolsonaro?" e "quem é capaz de derrotar Lula?".
Os principais episódios do segundo turno
Lulinha investigado: Entre o fim de julho e o início de agosto, o STF autorizou, a pedido da Polícia Federal, a abertura de três inquéritos para investigar Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, por suspeita de tráfico de influência em negociações relacionadas ao Ministério da Saúde e de favorecimento a empresários. O tema se estendeu ao longo do segundo turno.
Crise no Supremo: A divulgação de novas mensagens do banqueiro Daniel Vorcaro para o ministro Alexandre de Moraes gerou uma crise institucional no STF. Lula se reuniu com os magistrados da Corte e passou a cobrar uma reforma do Judiciário. Flávio Bolsonaro investiu no tema, ligando o presidente a Moraes, Dias Toffoli e Flávio Dino, enquanto petistas acusaram os ministros Kassio Nunes Marques e André Mendonça de atuarem em favor do filho de Jair Bolsonaro.
Dark Horse e o Caso Master: Conversas em que Flávio Bolsonaro cobra de Daniel Vorcaro repasses de R$ 134 milhões para a finalização do filme "Dark horse" provocaram a primeira grande crise da candidatura do PL. A campanha também foi afetada pela informação falsa de que Flávio atuaria para retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de Padroeira do Brasil e pela divulgação de investigações da PF sobre suposto esquema de lavagem de dinheiro envolvendo o senador.
Pacote de bondades: Para tentar reverter o resultado do primeiro turno, Lula lançou um pacote que incluiu o reajuste do Bolsa Família, o fim das Bets, o perdão das dívidas dos MEIs e a aprovação do fim da escala 6x1. Flávio Bolsonaro, na mesma linha, prometeu a criação do Ministério da Prosperidade, a distribuição de voucher para creches e a manutenção dos programas sociais existentes.
Disputa nas redes: Na primeira semana do segundo turno, Lula passou a gravar vídeos em formato de selfie e reuniu jovens influenciadores eleitos para reforçar sua presença digital. O deputado André Janones criou o "Exército Lula", que chegou a mais de 10 milhões de inscritos antes de ser suspenso pelo TSE. Em resposta, a campanha do PL lançou a "Tropa de Flávio" e contou com postagens de aliados como Nikolas Ferreira.
Embates na TV: No dia 18, Flávio Bolsonaro e Lula se enfrentaram no debate da Band, marcado por ataques mútuos e momentos de gritaria da plateia. Lula questionou o adversário sobre seu voto contra a ampliação da licença maternidade; Flávio Bolsonaro respondeu perguntando se o presidente conhecia a lobista Roberta Luchsinger, investigada junto com Lulinha.
Bolsa Família no centro do debate: Propostas distorcidas da equipe de Flávio Bolsonaro para o Bolsa Família, somadas a publicações antigas em que o senador chamava o programa de "bolsa-farelo", colocaram a transferência de renda no centro do embate. Lula passou a afirmar que o benefício pago a 49,4 milhões de pessoas poderia ser extinto caso o adversário vencesse.
Mobilização nas ruas: O segundo turno foi marcado por manifestações de estudantes em favor de Lula, que se espalharam pelo país. Os bolsonaristas responderam com atos pró-Flávio Bolsonaro, como os "bloquinhos" organizados por Nikolas Ferreira.
As eleições de 2026 evidenciaram que coligações, emendas parlamentares e apoio institucional de igrejas pesaram menos do que identidades políticas consolidadas. A polarização entre Lula e Flávio Bolsonaro voltou a dominar o cenário, com o "voto contra" como principal motor de decisão de um eleitorado que, apesar dos escândalos e das promessas de última hora, manteve suas escolhas praticamente cristalizadas antes mesmo do segundo turno.