Flávio Bolsonaro apaga posts contra Bolsa Família

Senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) - Foto: Andressa Anholete/Agência Senado
Senador removeu publicações em que chamava o benefício de "bolsa-farelo"; campanha não respondeu sobre as exclusões
O senador e pré-candidato à Presidência da República Flávio Bolsonaro (PL-RJ) apagou de sua conta no X, antigo Twitter, publicações em que criticava o Bolsa Família e chamava o benefício social de "bolsa-farelo". As postagens removidas datam de 2011 a 2014 e foram identificadas a partir de um arquivo baixado pelo Estadão meses antes. A exclusão dos posts ocorre em um momento em que Flávio Bolsonaro tenta se aproximar dos beneficiários do programa social. Em um vídeo publicado no Instagram nesta segunda-feira, o senador afirmou que quem recebe o Bolsa Família pode ficar "tranquilo" porque o "benefício está garantido".
Entre os posts removidos, está uma mensagem de novembro de 2011, quando Flávio Bolsonaro ainda era deputado estadual. Na ocasião, ele escreveu em resposta ao perfil do jornalista Ancelmo Gois: "Fui o único voto contra na @alerj ao projeto Renda Melhor, q chamei de bolsa-farelo, pelo seu caráter clientelista eleitoral".
O programa Renda Melhor, criado pelo governo do Rio de Janeiro em 2011, pagava um benefício adicional de até R$ 300 para famílias já contempladas pelo Bolsa Família, com o objetivo de combater a extrema pobreza. Sobre o mesmo programa, Flávio Bolsonaro fez cinco publicações em novembro de 2011, todas se referindo à iniciativa como "bolsa-farelo". Em uma delas, escreveu: "Fiz emendas ao projeto q foram rejeitadas, p/ limitar em 2 anos o tempo p/ a pessoa receber o bolsa-farelo". Em outra, acrescentou: "Se houvesse o limite de tempo p/ pessoa receber o bolsa-farelo poderia até ser favorável…".
Em junho de 2013, o senador afirmava que o PT "perpetua a pobreza com o bolsa-farelo, mantendo as pessoas nessa dependência para não perder seus votos". Já em 2014, em referência à Comissão da Verdade, escreveu: "#ComissãoDaVerdadeDescobre que dinheiro cai do céu e ninguém precisa trabalhar dobrado para manter quem vive de Bolsa Família". Também naquele ano, questionou a metodologia de cálculo do desemprego no Brasil, afirmando: "Os milhões que recebem bolsa-família ou auxílio-desemprego, não procuram emprego. Para o PT, estão empregados". Uma publicação de 2011 também foi removida, na qual Flávio Bolsonaro criticava o PT por articular um acordo com a oposição para aprovar um reajuste do auxílio, resumindo a iniciativa como "financiamento público de campanha do PT".
A remoção dos posts só pôde ser constatada porque, em junho deste ano, o Estadão realizou o download de todas as publicações de Flávio Bolsonaro no X. A planilha obtida contém o texto, a data e o horário de cada postagem, além dos links para as publicações originais na plataforma. O material havia servido de base para uma reportagem anterior que mostrou como o candidato mudou de posicionamento em relação ao Bolsa Família ao longo dos anos. Na época, ao ser procurado, Flávio Bolsonaro negou ter mudado de posição. O Estadão questionou a campanha do senador sobre o motivo das exclusões, mas não obteve resposta até o momento da publicação.
O prazo de dois anos citado por Flávio Bolsonaro em 2011 voltou ao debate público nesta segunda-feira (19), mas em outro contexto. A coordenadora econômica da campanha, Daniella Marques, afirmou em entrevista à CBN Bahia que um eventual governo Flávio Bolsonaro pretende implementar uma regra de transição de dois anos no Bolsa Família, para que os beneficiários abram seus negócios ou aceitem empregos com carteira assinada, com retorno automático ao benefício caso não encontrem oportunidades. "As pessoas não podem ficar presas para sempre no Bolsa Família; aquilo é uma proteção, mas é o início de uma jornada, e todo mundo merece sonhar com mais oportunidade, mais dignidade. É justamente nisso que a gente quer focar, esse é o coração do plano do Flávio", afirmou Marques.
Após a entrevista, perfis ligados ao PT e a apoiadores do presidente Lula passaram a divulgar nas redes sociais que Flávio Bolsonaro pretendia desligar beneficiários do programa após dois anos. Com a repercussão, Daniella Marques gravou um vídeo desmentindo a informação e explicando sua fala. O senador, por sua vez, acusou a esquerda de espalhar mentiras. "A sua família hoje se aumentar a renda ou aceitar um emprego de carteira assinada, com o Lula mantém o Bolsa Família só por um ano. Com o Flávio, vai manter por dois anos. Com o Lula o retorno é em até 36 meses. Com o Flávio, seu retorno [ao programa] é automático", declarou Daniella Marques. As exclusões das publicações e a polêmica em torno da proposta de transição reacendem o debate sobre a trajetória e as posições de Flávio Bolsonaro em relação aos programas sociais, em meio à sua pré-candidatura à Presidência da República.