Flávio Bolsonaro amplia crise entre Lula e Milei

Foto: World Economic Forum/Flickr
Passagem do senador pelo território argentino aprofunda tensão diplomática entre os governos de Lula e Milei
A saída do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) pelo território argentino representa mais um elemento que aprofunda a crise diplomática entre os governos do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e do presidente argentino Javier Milei. Menos de 72 horas após perder a eleição presidencial para Lula, Flávio Bolsonaro desembarcou na manhã desta quarta-feira (28/10) em Miami, nos Estados Unidos, em um voo que partiu do Equador, após deixar o Brasil por terra com os passaportes cancelados pela Polícia Federal. O governo argentino confirmou que Flávio Bolsonaro, acompanhado de sua esposa Fernanda e suas duas filhas, entrou em território nacional às 22h50 da noite de terça-feira (27/10), partindo em seguida de avião para Guayaquil, no Equador. O senador cruzou a fronteira brasileira pela ponte internacional Tancredo Neves, em Puerto Iguazú, localizada na tríplice fronteira entre Brasil, Argentina e Paraguai, a cerca de 15 quilômetros de Foz do Iguaçu (PR). O Itamaraty ainda não se pronunciou sobre a passagem de Flávio Bolsonaro pelo território argentino, mas o episódio tende a ampliar o desgaste entre os dois países, que já acumulam uma série de tensões diplomáticas ao longo do período eleitoral brasileiro.
Desde o início do período eleitoral no Brasil, Javier Milei se envolveu de diferentes formas na disputa entre Lula e Flávio Bolsonaro. Na convenção que lançou a candidatura do senador, o presidente argentino se referiu a Lula como "presidiário" e chamou o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes de "lixo careca". Em suas declarações, Milei afirmou: "O lixo careca não me permitiu visitar meu amigo (o ex-presidente Jair Bolsonaro) injustamente preso, embora eu saiba que Lula recebia constantemente líderes estrangeiros enquanto estava na cadeia, inclusive aquele ex-presidente argentino desastroso, Alberto Fernández".
No dia 20 de outubro, cinco dias antes do segundo turno das eleições, Milei voltou a se manifestar nas redes sociais, declarando esperar que "a última artimanha suja da campanha" do petista "não envolva roubar a eleição". Em resposta, o Itamaraty classificou as declarações como "nova e inaceitável tentativa de ingerência externa no processo democrático brasileiro". O embaixador brasileiro em Buenos Aires, Julio Bitelli, havia sido convocado a retornar a Brasília em agosto, após os ataques de Milei a Lula na convenção do PL. Após reuniões com o ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, ficou definido que ele não retornaria à Argentina antes do fim das eleições, o que representou um rebaixamento nas relações diplomáticas entre os dois países. Desde então, a representação brasileira no país vizinho passou a ser comandada por um encarregado de negócios, cargo inferior ao de embaixador. O embaixador argentino em Brasília, Guillermo Daniel Raimondi, foi convocado a dar explicações na ocasião, mas o Itamaraty descartou declará-lo persona non grata, medida que aprofundaria ainda mais a crise entre os dois governos. A passagem de Flávio Bolsonaro pelo território argentino, somada às declarações de Milei ao longo do período eleitoral, coloca em evidência o nível de tensão nas relações entre Brasil e Argentina, com o Itamaraty ainda sem se pronunciar oficialmente sobre o episódio mais recente.