Folha retirou trechos sobre suspeitas contra a Fictor após pressão de Vorcaro

Empresário e ex-banqueiro Daniel Vorcaro - Foto: Banco Master/Divulgação
Jornal removeu quatro parágrafos sobre a Fictor após insatisfação de Daniel Vorcaro, sem avisar leitores sobre a alteração
A Folha de S.Paulo removeu trechos de uma reportagem sobre a Fictor, instituição parceira do Banco Master, após o banqueiro Daniel Vorcaro demonstrar insatisfação com o conteúdo publicado. A própria ombudsman do jornal chegou a afirmar que o veículo havia sido "generoso" demais com o grupo.
O episódio ganhou novos contornos após a Polícia Federal revelar que a Fictor agiu em conluio com Vorcaro em uma negociação de R$ 500 milhões relacionada à tentativa frustrada de salvar o Master.
A reportagem original foi publicada em 17 de novembro de 2025, data do anúncio da compra do Banco Master, sob o título "Interessado no Master, Fictor cresceu com financeirização do agro e tem negócio de marmita e cartão". O texto inicial, divulgado às 21h04 no portal UOL, trazia, já a partir do segundo parágrafo, informações sobre a atuação suspeita da Fictor por meio de SCPs (sociedades em conta de participação), conforme registros públicos de consulta histórica de sites.
Em quatro parágrafos que foram posteriormente suprimidos, a Folha informava que a Fictor captava recursos por meio dessas sociedades ocultas e destacava que esse modelo não possui supervisão da Comissão de Valores Mobiliários (CVM). A reportagem original mencionava ainda 11 SCPs ligadas ao grupo, com capital social somado de R$ 1,67 bilhão, e incluía a fala de um advogado especialista em direito societário sobre os riscos significativos da ausência de fiscalização regulatória.
Menos de duas horas após a publicação original, os quatro parágrafos desapareceram do texto, sem qualquer aviso aos leitores. O horário de publicação registrado no link original, que permanece no ar, também foi alterado: de 21h04 para 22h29. Não houve nenhuma nota explicando a supressão dos trechos desfavoráveis ao Grupo Fictor.
O próprio Manual de Redação da Folha de S.Paulo estabelece que "suprimir ou inserir uma informação de um texto pode alterar o significado da notícia", e que o jornal mantém uma "atitude de permanente transparência diante dos seus leitores". No caso em questão, no entanto, nenhum aviso foi dado sobre a mudança.
Conversas de WhatsApp vazadas sobre o episódio indicam que Daniel Vorcaro demonstrou preocupação com o tom das reportagens sobre a Fictor no dia do anúncio da operação. O banqueiro teria pedido pessoalmente a jornalistas, e por meio de seus assessores de crise, que tentassem evitar o desgaste público do grupo.
A ombudsman da Folha, profissional responsável por fazer autocrítica sobre a própria publicação, se manifestou sobre o caso. Em seu texto, ela escreveu: "O perfil do grupo publicado pelo jornal antes da operação da PF, aliás, soa generoso demais com o 'conglomerado', e as atividades da Fictor são descritas com base no próprio site da empresa".
O desfecho da história da Fictor deu razão às informações que foram removidas. Em fevereiro deste ano, o grupo entrou com pedido de recuperação judicial, com passivo declarado de R$ 4,2 bilhões e mais de 13 mil credores, a maioria pessoas físicas. Em agosto, a 3ª Vara de Falências e Recuperações Judiciais de São Paulo declarou nulos os contratos de SCPs firmados pelo grupo com milhares de investidores, confirmando que essas operações eram o pilar do esquema considerado criminoso.
Este não foi o único episódio envolvendo a Folha e o universo do Banco Master. O Metrópoles revelou, em 16 de outubro, que Daniel Vorcaro pagou R$ 1 milhão a um gestor de crise para interferir na publicação e no conteúdo de uma reportagem sobre o então dono do banco no jornal. O veículo teria segurado a matéria por pelo menos 22 dias e publicado o texto com trechos que enalteciam a performance do Master. Cerca de um ano depois, por ocasião da prisão de Vorcaro em 17 de novembro de 2025, a reportagem foi editada novamente: três parágrafos favoráveis ao banqueiro foram suprimidos e um de sentido oposto foi inserido.
Procurada, a Folha de S.Paulo respondeu às perguntas sobre o caso. Sobre a remoção dos parágrafos, o jornal afirmou que "a Editoria de Economia julgou ser necessário ouvir a CVM e explicar melhor a forma de captação de recursos da Fictor", acrescentando que "o texto era um perfil do grupo que se declarava interessado em comprar o Master, não uma matéria de denúncia". O veículo negou ter recebido qualquer pedido externo para retirar os trechos e afirmou que não houve atuação de gestor de crises.
Sobre a ausência de aviso aos leitores, a Folha disse que "a praxe é informar em que dia e hora o texto foi atualizado" e que "os parágrafos retirados não eram importantes para o objetivo do texto: retratar o grupo que afirmava querer comprar o Master".