Epamig alerta para qualidade do café em MG após chuvas atípicas

© Arquivio/Marcelo Camargo/Agência Brasil
Chuvas atípicas durante a safra comprometem colheita e elevam risco de contaminação por micotoxinas nos grãos, segundo a Epamig
As chuvas intensas e fora de época que atingiram as principais regiões produtoras de café em Minas Gerais durante a safra deste ano trouxeram sérios desafios aos cafeicultores, comprometendo a fisiologia das plantas, o cronograma de colheita e a qualidade final dos grãos. O cenário atípico acende um alerta sobre os riscos à segurança do produto e à presença de toxinas nos grãos. Dados da estação meteorológica mantida pela Epamig em Três Pontas (MG) revelam o caráter excepcional das precipitações registradas neste inverno. Entre maio e julho, o volume acumulado de chuvas chegou a 141 mm no município, número expressivamente superior ao registrado nos mesmos meses de anos anteriores: 11 mm em 2022, 35 mm em 2023, 12 mm em 2024 e 47 mm em 2025.
A pesquisadora da Epamig Vanessa Figueiredo explica que a precipitação volumosa em plena fase de desenvolvimento e colheita desregulou o ciclo produtivo das lavouras. "A ocorrência dessas chuvas trouxe diferentes consequências para as lavouras, como alterações na fisiologia do cafeeiro, incluindo floradas fora de época, além de interferir diretamente nas operações de colheita e pós-colheita", explicou. Além de provocar a queda precoce dos frutos ao chão, o excesso de umidade no solo dificultou a entrada de máquinas e trabalhadores nas lavouras. O atraso na colheita dos grãos, tanto os que permaneceram nas plantas quanto os caídos ao solo, criou condições favoráveis ao surgimento de microrganismos deterioradores. Outro agravante foi o aumento na incidência da broca-do-café, uma das principais pragas da cafeicultura, que encontrou nas condições úmidas o ambiente ideal para se multiplicar.
A deterioração dos grãos em razão da umidade excessiva levanta preocupações sobre a segurança do produto. Grãos colhidos tardiamente ou recolhidos do chão apresentam maior risco de desenvolver fungos produtores de micotoxinas, com destaque para a ocratoxina A (OTA). A pesquisadora aposentada da Epamig Sara Maria Chalfoun esclarece que a contaminação está diretamente ligada a grãos defeituosos. "Grãos com alguns defeitos, especialmente os pretos e ardidos, podem apresentar maior ocorrência desses fungos e maior risco de contaminação pela toxina. Por isso, cafés com elevada porcentagem de catação merecem atenção, conforme os tipos de defeitos presentes nessa fração", alertou.
Chalfoun reforça que os cuidados preventivos devem abranger desde o controle fitossanitário no campo até o beneficiamento, a classificação, o armazenamento e o transporte do café. Apesar dos riscos elevados nesta safra, as especialistas da Epamig ressaltam que não se deve associar automaticamente um café de menor qualidade à presença de toxinas, já que a confirmação da ocratoxina A depende exclusivamente de exames laboratoriais específicos. Diante do cenário adverso, a instituição recomenda a adoção rigorosa dos Programas de Boas Práticas ao longo de toda a cadeia de suprimentos. "A prevenção deve ser entendida como uma responsabilidade compartilhada ao longo de toda a cadeia produtiva. Os cuidados iniciados pelo cafeicultor no campo precisam ter continuidade nas etapas seguintes, para que o produto chegue ao consumidor com suas características de qualidade sensorial e segurança preservadas", concluem as pesquisadoras.