Embargo a Cuba divide ONU com pressão dos EUA

Foto: ONU/Eskinder Debebe
Resolução que pede fim do embargo a Cuba é aprovada na ONU, mas EUA conseguem ampliar votos contrários e abstenções entre aliados ocidentais
A Assembleia Geral da ONU aprovou, por ampla maioria, uma resolução pedindo o fim do embargo econômico imposto pelos Estados Unidos a Cuba há mais de seis décadas. Apesar da vitória simbólica de Havana, uma campanha de pressão norte-americana resultou em um número significativamente maior de países votando contra a resolução ou se abstendo pela primeira vez em anos. Os resultados da votação mostraram que 130 nações votaram a favor da resolução, enquanto 25 se abstiveram e 17 países votaram contra, incluindo os EUA e Israel. O contraste com o ano anterior é expressivo: em 2023, a votação havia sido de 165 a 7, com apenas 12 abstenções. Países ocidentais como Alemanha e Itália se abstiveram pela primeira vez em muitos anos, sinalizando o impacto da pressão diplomática norte-americana. A votação da ONU carrega peso político, mas apenas o Congresso dos EUA tem poder para suspender o embargo, que remonta à era da Guerra Fria.
A Assembleia Geral, composta por 193 membros, vem adotando a resolução anualmente há mais de três décadas, com exceção de 2020, durante a pandemia de Covid. "Estou satisfeito por tantos países agora, incluindo grandes economias como a Coreia, a Alemanha e outros, terem mudado sua posição", declarou o enviado dos EUA à ONU, Mike Waltz, a repórteres após a votação. "A diplomacia leva tempo, mas agora que o número de países que mudaram de posição triplicou, esperamos que isso só continue a crescer", acrescentou. As tensões entre as duas nações se intensificaram nos dias que antecederam a votação, com discussões acaloradas entre diplomatas cubanos e norte-americanos na semana passada e episódios de gritos e empurrões no plenário da Assembleia Geral na terça-feira.
Na quarta-feira, Waltz acusou um diplomata cubano de "agredir um diplomata norte-americano" durante os incidentes do dia anterior, anunciando a expulsão de Richard Tur de la Concepción, primeiro-secretário da missão de Cuba na ONU. "Esse primeiro secretário cubano estará hoje em um avião saindo do país de volta a Havana", afirmou Waltz. A missão cubana na ONU não respondeu imediatamente às perguntas sobre a expulsão. O governo do presidente Donald Trump vem intensificando a pressão sobre Cuba, após ter recorrido às Forças Armadas em janeiro para destituir o presidente venezuelano Nicolás Maduro. O ministro das Relações Exteriores de Cuba, Bruno Rodríguez, reagiu à votação pelo X, afirmando que "o governo dos EUA está mais uma vez isolado em sua tentativa de continuar sufocando o povo cubano e submetendo-o a um ato de punição coletiva e genocídio". "Nem seus pretextos mais insanos, nem suas pressões, nem o circo midiático prevalecerão sobre a força dos fatos e da verdade", completou.
Os Estados Unidos votam contra as resoluções da ONU sobre o embargo desde 1992, com exceção de 2016, quando o governo Barack Obama se absteve pela primeira vez em meio à reaproximação entre Washington e Havana. Cuba atribui às sanções norte-americanas a grave crise econômica que atravessa, a pior recessão em décadas, marcada pela escassez de bens básicos, infraestrutura em colapso e inflação elevada. No mês passado, Trump afirmou na ONU que Cuba era um Estado falido e que a liberdade chegaria à nação insular. A rede elétrica cubana sofreu um colapso total nesse mesmo período, deixando milhões de pessoas sem energia elétrica.