El Niño segue como certeza até dezembro e ameaça café, soja e milho em Minas

© CNA/Wenderson Araujo/Trilux
El Niño permanece ativo com certeza até dezembro e ameaça a florada do café e a semeadura de soja e milho em Minas Gerais
O El Niño tem 100% de chance de permanecer ativo entre outubro e dezembro, segundo o Instituto Nacional de Meteorologia (INMET). O boletim agroclimatológico do órgão aponta que o trimestre deve começar com chuvas abaixo da média e temperaturas acima do normal em grande parte do Centro-Oeste, do Norte e do norte de Minas Gerais. Para o produtor mineiro, outubro representa o período mais crítico: o solo seco combinado com o calor intenso pode comprometer a florada do café arábica e atrasar a semeadura da soja e do milho. A previsão indica que as chuvas voltam de forma mais regular a partir de novembro, e em dezembro a umidade do solo deve superar 90% da capacidade em quase todo o Centro-Oeste. No Sul do país, o cenário é inverso, com excesso de chuva ao longo dos três meses.
O índice RONI da região Niño 3.4, que mede o aquecimento do Pacífico, atingiu +2,06 em setembro, valor superior ao de agosto e quatro vezes acima do limiar de +0,5 que caracteriza a fase quente do fenômeno. Entre os dias 16 e 30 de setembro, a superfície do Pacífico Equatorial registrou temperatura de 1 °C a 4 °C acima da média nas porções central e leste, com um núcleo superior a 4 °C próximo à costa da América do Sul. De acordo com a previsão do International Research Institute for Climate and Society (IRI), citada pelo INMET, a probabilidade de El Niño no trimestre de outubro a dezembro é de 100%, e ainda de 87% entre abril e junho de 2027. O fenômeno deve, portanto, atravessar o verão e parte do outono. A confirmação oficial de um evento exige que o índice permaneça igual ou acima de +0,5 °C por cinco trimestres móveis consecutivos. No Atlântico Tropical, as águas estão em neutralidade, exercendo pouca influência sobre as chuvas do Norte. **Café: calor e solo seco ameaçam a florada em Minas** Nas regiões de café arábica, a combinação de calor e deficiência hídrica prevista para outubro pode comprometer a florada, segundo o INMET. Em Minas Gerais, o solo seco por períodos prolongados aumenta o risco de abortamento das flores e reduz o pegamento dos frutos. O trimestre deve registrar temperaturas de 1 °C a 2 °C acima da média no centro e no norte do estado, as maiores anomalias previstas para o Sudeste, ao lado do leste paulista. O ponto de partida já é preocupante. Em setembro, o norte de Minas encerrou o mês com menos de 15% de água disponível no solo, e Januária registrou média das temperaturas máximas de 36,7 °C, a mais alta do Sudeste. A partir de novembro, a umidade deve se recuperar gradualmente, melhorando o pegamento e o desenvolvimento inicial dos frutos. No norte do Espírito Santo, principal região do café conilon no estado, a escassez de água deve persistir durante todo o trimestre, aumentando a necessidade de irrigação.
Em Minas Gerais, as condições para semear soja e milho devem melhorar a partir de novembro, com chuvas mais frequentes. No norte do estado e no Espírito Santo, porém, a umidade do solo deve continuar abaixo de 30% da capacidade em novembro, e no extremo norte mineiro essa situação pode se estender até dezembro, atrasando a semeadura. O INMET recomenda plantar somente com umidade adequada, para evitar baixa emergência das plantas. Em São Paulo, outubro já é considerado favorável à semeadura. Em Mato Grosso, o déficit hídrico e o calor de outubro elevam o risco de falhas na germinação, emergência desuniforme e necessidade de replantio da soja. As lavouras semeadas em setembro podem ter o desenvolvimento inicial comprometido. Goiás e o Distrito Federal enfrentam cenário semelhante para soja, milho e feijão de primeira safra. A exceção fica por conta do sul de Mato Grosso do Sul, onde o solo úmido favorece a semeadura. Em dezembro, o excedente de água pode ultrapassar 150 mm no norte de Mato Grosso e no centro de Goiás, mudando o alerta para doenças fúngicas e redução das janelas para pulverização. No Matopiba, o solo seco em outubro e novembro eleva o risco para a soja semeada precocemente. No oeste da Bahia, a umidade retorna em dezembro, mas o calendário oficial de semeadura encerra em 31 de dezembro, e um adiamento pode concentrar o plantio em poucos dias.
No Sul do país, a previsão aponta chuva acima da média em toda a região, com mais de 100 mm acima do normal no Rio Grande do Sul, em Santa Catarina e no sul e leste do Paraná. Em outubro, o excedente de água pode superar 200 mm no oeste e no norte gaúcho, em Santa Catarina e no centro-sul do Paraná. O excesso de umidade reduz as janelas para controle de doenças e colheita de trigo, cevada e canola, além de poder prejudicar o preparo do solo para a soja em áreas com drenagem deficiente. O INMET alerta para tempestades, vendavais e granizo, fenômenos mais frequentes durante o El Niño. O milho deve contar com água suficiente, mas necessita de sol no pendoamento, na floração e no enchimento de grãos, fases previstas para novembro e dezembro. No arroz irrigado, a chuva e a nebulosidade favorecem o surgimento de doenças. Nas pastagens encharcadas, o pisoteio dos animais pode degradar o solo.
Quase todo o Norte deve registrar chuva abaixo da média, com até 200 mm a menos em Roraima, no norte e nordeste do Amazonas, no Baixo Amazonas e no sudoeste do Pará, além de temperatura até 2 °C acima do normal. Em Roraima, no Amapá, no Baixo Amazonas e no nordeste do Pará, o solo deve ficar abaixo de 30% da capacidade no trimestre, dificultando o início da soja e mantendo elevado o risco de incêndio em lavouras e pastagens. Em Rondônia, no Acre e no sul do Pará, a água retorna em dezembro e favorece a soja e o milho de primeira safra. No Nordeste, o solo deve permanecer abaixo de 20% da capacidade em quase toda a região durante os três meses. No semiárido, a escassez de forragem e de água para o rebanho exige o uso de reservas como a palma forrageira e a silagem. O plantio de milho e feijão de sequeiro no sudeste do Piauí e no norte da Bahia depende da regularização das chuvas.
O trimestre começa após um setembro marcado por extremos. Frentes frias levaram a acumulados recordes para o mês em diversas localidades paulistas: Iguape registrou 454,2 mm e a capital, 324,6 mm. No Paraná, Morretes somou 462,4 mm. No interior do Nordeste, a maior parte das áreas acumulou menos de 30 mm, e o maior registro da região, em Recife, foi de 91,4 mm. No Sul, granizo e vendavais causaram perdas pontuais em culturas de inverno e de verão, com geada nas áreas mais elevadas. No semiárido e no Sealba (Sergipe, Alagoas e Bahia), o feijão e o milho de terceira safra ficaram sob estresse hídrico, e no Sertão de Alagoas houve abortamento de flores e vagens. No Matopiba, o tempo seco contribuiu para encerrar a colheita do algodão com boa qualidade da fibra. As informações são do Boletim Agroclimatológico do INMET, volume 66, número 10, de outubro de 2026, com previsões baseadas no modelo multimodelo INMET/CPTEC/Funceme, probabilidade do El Niño pelo IRI e temperatura do mar pela NOAA.