Divórcio dos pais eleva risco de depressão, mostra estudo

© Marcello Casal JrAgência Brasil
Estudo com 128 mil adultos nos EUA mostra que o divórcio dos pais na infância está associado à depressão, mas o contexto familiar pesa mais
Adultos que vivenciaram o divórcio dos pais durante a infância têm maior probabilidade de relatar um diagnóstico de depressão ao longo da vida. No entanto, um estudo com mais de 128 mil adultos nos Estados Unidos, publicado na revista científica Psychiatry Research, sugere que a separação em si pode não ser a principal responsável por essa associação. Na análise inicial, os participantes cujos pais se divorciaram antes de eles completarem 18 anos apresentaram uma chance 41% maior de relatar um diagnóstico de depressão ao longo da vida, em comparação com aqueles cujos pais permaneceram casados.
A prevalência foi de 19,2% no primeiro grupo e de 14,1% no segundo. Essa diferença, porém, diminuiu quando os pesquisadores levaram em conta outros fatores do ambiente familiar, especialmente a saúde mental dos pais e problemas relacionados ao consumo de álcool e outras drogas. Após esses ajustes, a relação entre o divórcio e a depressão deixou de ser estatisticamente significativa. Os dados também revelaram diferenças importantes nas condições familiares dos participantes. Entre aqueles que vivenciaram a separação dos pais, mais de um em cada cinco relatou ter crescido com um responsável que enfrentava algum transtorno mental. Entre os participantes cujos pais permaneceram casados, a proporção foi de aproximadamente um em cada dez. Problemas relacionados ao uso de substâncias também foram mais frequentes no primeiro grupo: 35%, ante 15% no segundo. Os resultados indicam que, para compreender os possíveis efeitos da separação sobre a saúde mental dos filhos, é necessário considerar não apenas o rompimento conjugal, mas também as condições emocionais e relacionais que caracterizam o ambiente familiar.
Para a psicóloga Débora Telles, mestre em Psicologia Clínica pela PUC-SP, o impacto emocional do divórcio depende, em grande medida, da maneira como os adultos conduzem o processo e das condições em que a criança vive antes, durante e depois da separação. "O que mais prejudica os filhos não é a separação em si, e sim o conflito entre os pais. Crianças expostas a brigas intensas e persistentes, dentro ou fora do casamento, são as que mais sofrem. Em famílias de conflito muito elevado, a separação pode inclusive representar um alívio", afirma. Segundo a especialista, o fim do casamento costuma trazer mudanças simultâneas na vida dos filhos, como alterações de residência, rotina, escola e padrão de vida.
Nos primeiros meses, podem surgir tristeza, ansiedade, raiva, insegurança e até sentimentos de culpa. Essas reações, entretanto, não significam necessariamente que a criança desenvolverá um transtorno mental. A forma como os responsáveis explicam a separação e preservam os vínculos afetivos é especialmente importante. Crianças pequenas podem interpretar o rompimento como consequência de algo que fizeram ou temer que a mudança na relação entre os pais comprometa também o amor que recebem deles. "Crianças pequenas tendem a se colocar no centro dos acontecimentos e podem concluir que a separação aconteceu por sua causa, ou que, se o amor entre os pais acabou, o amor por elas também pode acabar", explica Débora.
Por isso, a psicóloga recomenda que os adultos deixem claro que a decisão de se separar pertence ao casal e não tem relação com o comportamento dos filhos. Sempre que possível, a comunicação deve ser feita pelos dois responsáveis, com linguagem adequada à idade e sem exposição aos detalhes dos conflitos conjugais.
O sofrimento emocional pode se manifestar de diferentes maneiras, dependendo da idade da criança. Entre as menores, são comuns dificuldades para dormir, medo de se afastar dos pais, birras e regressões comportamentais, como voltar a fazer xixi na cama. Na idade escolar, podem surgir irritabilidade, tristeza, queixas físicas sem causa médica identificada e queda no rendimento escolar. Entre adolescentes, os sinais podem incluir isolamento, agressividade, desinteresse pelos estudos e comportamentos de risco. Há também manifestações menos evidentes. Algumas crianças passam a se comportar de maneira excessivamente obediente, tentando não causar problemas em um momento de tensão familiar. Outras assumem responsabilidades emocionais que não correspondem à sua idade, procurando cuidar de um dos pais ou dos irmãos. "Muitas vezes, os adultos leem esses comportamentos como maturidade, quando eles podem esconder um sofrimento silencioso", alerta a especialista. A orientação é observar a intensidade e a duração dessas mudanças, assim como seus efeitos sobre a rotina. Quando os sinais persistem e prejudicam o sono, a alimentação, o desempenho escolar ou as relações sociais, é recomendável buscar avaliação profissional.